ReproduçãoEmilinha Borba começou a carreira aos 14 anos no Cassino da Urca, graças a um empurrãozinho de Carmen MirandaA estrela mais popular da era do rádio comemora hoje 75 anos de idade, cercada pelo carinho de uma legião de fãs que a acompanha desde o início de sua carreira. Emília Savana da Silva Borba, a Emilinha Borba, que um dia foi eleita ‘‘a favorita da Marinha’’ e era anunciada por César de Alencar como ‘‘a minha, a sua, a nossa favorita’’, em meio ao delírio dos fãs que lotavam o auditório da Rádio Nacional, tem muitas histórias para contar.
A começar pela famosa rivalidade com a cantora Marlene, passando pela ‘‘cantada’’ que recebeu do cineasta Orson Welles no Cassino da Urca e de um insólito episódio ocorrido durante uma apresentação no teatro Beira-Rio, em Manaus. Todos os casos foram reunidos num livro de memórias intitulado ‘‘História da Minha Vida’’, ainda a ser lançado.
Nascida no subúrbio carioca de Mangueira, numa vila fundada pelo avô e que leva seu sobrenome - Savana - Emilinha Borba, ou Neguinha, como era chamada em família, passou por sérias dificuldades depois da morte do pai. Para criar os sete filhos, a mãe, dona Edith, trabalhou como camareira no Cassino da Urca, onde conheceu a cantora Carmen Miranda. Edith falava com tanto orgulho dos dotes artísticos da filha de 14 anos que Carmen não teve dúvidas: encaminhou a garota ao dono do cassino, Joaquim Rolas, para fazer um teste - e emprestou a ela dois vestidos e os sapatos de salto alto.
Aprovada, Emilinha passou a cantar no coro do cantor (e futuro namorado) Nilson Paz, que em 1939 fazia sucesso no Carnaval com a marcha ‘‘Pirulito’’ (Pirulito que bate, bate/pirulito que já bateu...) - e fechou contrato para atuar no Cassino da Urca, como crooner, de 39 a 43. Do anonimato do coro, passou a dar os primeiros passos rumo à fama ao gravar o chorinho ‘‘Faça o Mesmo’’. Mas o primeiro sucesso aconteceria em 1946, com a rumba ‘‘Escandalosa’’ (Um dia, uma vez lá em Cuba/dançando uma rumba/Disseram que eu era/Escandalosa/Dancei, mas não me incomodei/porque a rumba é por si/maliciosa/Escandalosa...).
Foram mais de 600 gravações, até hoje, e sucessos como ‘‘Paraíba’’, ‘‘Tomara Que Chova’’, ‘‘Dez Anos’’, ‘‘Chiquita Bacana’’, ‘‘Primavera no Rio’’ e ‘‘Insensato Coração’’. O título de ‘‘Favorita da Marinha’’ foi dado em 1949, pelos marinheiros. Nos anos 50 e 60, a rivalidade com Marlene foi alimentada pelos programas de auditório e pela guerra dos fã-clubes, sempre com lances mirabolantes ou engraçados. Emilinha lembra que, uma vez, em 1953, quando ostentava o garboso título de ‘‘A Rainha do Rádio’’, fazia um show na rádio Globo e, na saída, foi abordada por uma garota que simulou lhe dar um abraço e espetou um alfinete em sua nádega.
Antes disso, em 1942, Orson Welles veio ao Brasil para filmar ‘‘It’s All True’’ e ficou tão entusiasmado ao ver Emilinha cantando no Cassino da Urca que também se arriscou a dar suas ‘‘cantadas’’. O cineasta falava em inglês, ela não entendia nada e quando alguém traduziu as palavras de Welles a cantora ficou meio sem graça. ‘‘Não rolou nada’’, garantiu, declarando-se muito tímida. Além do mais, a seu lado estava o namorado Nilson Paz, muito ciumento e que acabou dando um ‘‘chega pra lᒒ no cineasta.
Também faz parte de seu livro de memórias um episódio ocorrido em Manaus. Emilinha começava o seu show no teatro local quando apareceu uma aranha pendurada no palco. Apavorada, ela largou o microfone e saiu correndo.
Emilinha ficou 27 anos na rádio Nacional e 14 na Continental. Cantou em vários filmes e, nos últimos anos, fez muitos shows nos Estados Unidos, mais especialmente em Miami, onde é chamada de Emily. Foi casada entre 1956 e 1976 com Artur de Souza Costa, filho de um ministro do governo Vargas e pai de Arturzinho.
Sua carreira teve uma pausa entre 1968 e 1972, por causa de uma operação de edema nas cordas vocais, mas a cantora jamais foi abandonada pelo seu fã-clube, o mais antigo do Brasil e que todos os anos, no dia de seu aniversário, prepara uma surpresa para ela. Ao contrário de outros fã-clubes, o de Emilinha, criado há quase 50 anos e que conta hoje com 3.900 sócios só no Rio, é bem-comportado, passa longe da histeria. ‘‘O que nós procuramos é manter viva a memória do artista’’, explica o funcionário público Marcos Matias, um dos dirigentes.

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