Emicida muda abordagem em novo trabalho
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Rodrigo Levino<br>Folhapress 
São Paulo - "E agora, que eu tenho carro, casa e comida, vou cantar que não dá para vencer na vida?", pergunta Leandro Roque de Oliveira, 28 anos, o Emicida, em seu escritório na zona norte de São Paulo.
É que do primeiro single, "Triunfo", de 2008, a "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui", disco de estreia que será lançado hoje, às 16h, no YouTube, a vida do rapper deu uma virada.
No lugar do barraco e da fome na periferia há uma carreira consolidada, uma agenda de shows lotada, uma produtora que agencia outros rappers e, claro, dinheiro e melhores condições de vida. "Incutiram o pensamento na periferia de que 'as coisas legais não são para vocês, seu lugar é na favela'. Mas se eu vejo um rapper que há cinco anos rimava numa calçada e hoje está na TV, e isso me ofende, estou de certo modo fomentando o preconceito de que somos vítimas."
Sua música também foi arrastada pelas mudanças. "Em 2011, parei de escrever. Comecei a achar as coisas que eu fazia todas iguais: texturas, metáforas, ideias. Fui estudar, ler, voltei a ouvir música direito", diz.
O hiato durou até dezembro do ano passado, quando ele retomou os cadernos onde anota os tópicos que podem se tornar letras. Mas não foi só a melhoria financeira que o fez repensar as próprias composições.
Em março de 2012, Emicida foi detido em Belo Horizonte (MG), acusado de desacato à autoridade por cantar "Dedo na Ferida", música inspirada na desocupação da comunidade de Pinheirinho, no interior de São Paulo. "Fodam-se vocês, fodam-se suas leis", diz o refrão.
"Depois de levantarmos o tema, percebi que muita gente só queria um refrão que falasse um palavrão. Ninguém lembrou do que a letra tratava. Não renego a música, mas comecei a achá-la apelativa."
Na busca por um novo modo de vocalizar o protesto político que é intrínseco à cultura hip-hop, nasceram coisas como "Crisântemo", em que narra a morte de Miguel, pai do rapper, assassinado numa briga de bar quando ele ainda era criança. "Falar disso é muito mais dedo na ferida do que 'Dedo na Ferida'", justifica.
Além de Dona Jacira, mãe do cantor, o disco tem participação de Pitty, Tulipa Ruiz, Jussara Marçal, Wilson das Neves e MC Guime, este último uma das novas estrelas paulistas do chamado "funk ostentação".


