EMERGE A HISTÓRIA DA REPRESSÃO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de agosto de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O jornalista Percival de Souza narra com exclusividade e em primeira mão à Folha 2 fatos inéditos sobre a ditadura militar. Ele é autor de uma biografia sobre o delegado Fleury, que será lançada em outubro
A polarização entre esquerda armada e repressão no governo militar ultrapassou os parâmetros ideológicos e amargou um ódio profundo e cego. As mortes se sucederam em um lamaçal de tragédias. Espancamentos, torturas e traições desembocaram em um saldo até hoje mal calculado por ambas as partes. A chaga, sem cicatriz, desenvolveu-se em mácula nacional, resistindo às tentativas de disfarce. Aos poucos, a história propositalmente destruída emerge inesperada, com depoimentos de quem achava-se permaneceria calado até o túmulo.
Em 1979 o jornalista Percival de Souza recebeu uma proposta da revista Playboy. A idéia era entrevistar Sérgio Paranhos Fleury, o nome forte da repressão política do País. Desinteressado, Percival fez uma proposta financeira que considerava muito alta. A revista topou. Contatos feitos, com aceitação de Fleury, ocorreu o imprevisto: o policial morreu em Ilhabela.
A frustração da matéria não-realizada acompanhou Percival por anos, até que o jornalista agregou fragmentos da ditadura e decidiu contar a história de um dos nomes mais relevantes do período militar. Com uma lista de 117 entrevistados, Percival de Souza coletou depoimentos inéditos, situações reveladoras e fatos desconhecidos.
Em outubro, o livro Fleury está Aqui (título provisório) chegará às prateleiras pela Editora Globo, com cerca de 560 páginas, contando o que muitos tentaram esconder. As chagas que afloraram de uma condição raivosa, associada pelo autor a uma maldição que extrapola a racionalidade, surgem surpreendentes. Quem permanecia calado, falou.
Sérgio Paranhos Fleury nasceu em 1933 e teve uma carreira meteórica na polícia de São Paulo. Entre suas ações constam a repressão ao congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna e participação decisiva na captura e morte de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, além de comandar o Esquadrão da Morte, um organismo de extermínio de supostos criminosos.
O trabalho braçal para a realização de Fleury está Aqui durou cerca de dois anos. Percival ainda trombou com um personagem inédito e forte, o Cabo Anselmo, que deu origem ao livro Eu, Cabo Anselmo, lançado este ano pela Editora Globo. A obra narra a saga de um marinheiro que se envolveu na luta armada e foi preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Lá, Anselmo foi doutrinado pelo delegado Fleury e se tornou um agente infiltrado na esquerda, cumprindo ordens do regime militar. A ação resultou na morte de seis pessoas do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), braço da guerrilha esquerdista, fuziladas em Abreu e Lima, próximo a Recife.
Uma das revelações mais impactantes do novo livro é que existiram vários Anselmos, expondo a vulnerabilidade da luta armada. Há mais: Fleury se apaixonou por uma advogada anarquista, irmã de um combativo jornalista de esquerda. O texto detalha também os últimos momentos do delegado e traz à tona o inquérito de sua morte, datado de abril de 1979. É contraditório. Fleury morreu um mês depois, em maio.
Se a obra seguir os rumos de Eu, Cabo Anselmo, Fleury está Aqui não vai sofrer os destemperos do engajamento, comum nos textos sobre o tema. Não se trata de pender para um dos extremos, mas de reconstituir os fatos com a bússola apontada para a objetividade. O jornalista se desvia de julgamentos ou teorias especulativas, e os fatos narrados ganham status de protagonista.
Inspirado em Truman Capote, para quem a realidade é mais impactante do que a ficção, Percival de Souza chegou onde ninguém havia chegado. Sua presença nos porões da ditadura deixou ao menos uma lanterna acesa. Já é possível explorar o ambiente e iluminar os fantasmas que antes se esbarravam, mudos, na penumbra que habita a margem da história.
Descansando em uma chácara à beira da represa de Capivara, em Alvorada do Sul, no Paraná, Percival de Souza recebeu a reportagem da Folha2, no último sábado, para comentar, em primeira mão, fatos nunca revelados sobre o homem forte da repressão política e da ditadura militar.
Quando você decidiu que iria escrever sobre Sérgio Fernando Paranhos Fleury?
Ele morreu em 1979, 1º de maio, era uma terça-feira. Na semana anterior, a revista Playboy me pediu para fazer um ping-pong (entrevista) com ele. Na sexta-feira anterior ao 1º de maio fui ao Departamento Estadual de Investigações Criminais, do qual ele era diretor, e disse que queria fazer uma entrevista longa. Ele topou. A gente marcaria na semana seguinte. Quando eu saí do prédio da polícia, eu pensei: Se o Fleury realmente se abre, eu tenho uma bela entrevista. Tenho um livro. Aí na terça seguinte, 1h30 da madrugada, tocou o telefone: Fleury morreu. Esse cara podia ter esperado mais dez dias para morrer.
Como você estruturou o trabalho?
Fui juntando, ouvindo histórias daqui e dali... Até que em 98 cheguei à conclusão que, para fazer esse livro, teria que ouvir um número de pessoas. O tempo estava passando e várias delas estavam morrendo. Eu pensei: Ou eu faço isso ou nós vamos perder essa história. Então eu vi que tinha que ser um mergulho de fôlego até porque uma das coisas que apareceram foi o Cabo Anselmo. Eu conheci o Dops, ia de vez em quando ao Dops, mas nunca me passou pela cabeça que tinha um espião infiltrado morando lá dentro (o Cabo Anselmo viveu, por um período, no prédio do Dops).
Como você contextualizou a época?
Eu relacionei 117 pessoas. Tem gente da polícia, juiz, promotor, desembargador, militares. Muitas delas jamais falaram coisa alguma. Depois de começar o livro, passei a me esforçar para explicar, me despindo de qualquer paixão ou preconceito, o ódio latente entre as duas partes envolvidas. Em certo momento, as coisas tinham tons bem pessoais. Era algo assim: meu amigo foi morto e nós vamos nos vingar.
Muitos desses depoimentos devem ser reveladores.
Há um depoimento do Erasmo Dias em um capítulo que eu chamo Erasmo, o Terrorista. Ele me contou que o Figueiredo só o chamava de terrorista. O cara comandou o cerco do Lamarca no Vale do Ribeira, foi Secretário de Segurança, foi ele que promoveu o Fleury a delegado classe especial. Pô, esse cara falou. Há um detalhamento da morte de Onofre Pinto (um dos líderes da VPR) no Paraná. Ele estava no exterior e voltou ao Brasil para matar o Fleury, foi um esquema que o Serviço de Informações do Exército usou para atraí-lo. Foi perto de Medianeira. O Fleury já tinha detonado com o Anselmo e a VPR no sertão, o Onofre estava babando de raiva e foi morto.
Como era o Fleury no dia-a-dia, fora do ambiente de trabalho?
Há uma advogada que era amante do Fleury. Quando eu telefonei para marcar a entrevista para o livro, ela me disse: Eu sabia que um dia você iria me procurar. E me contou ao telefone que os dois tinham um cofre de aluguel num banco. Lá havia um envelope com meu nome, para ser entregue depois que ela morresse. Nesse envelope estavam as cartas de amor do casal, é uma preciosidade histórica. Ele realmente se apaixonou perdidamente por essa mulher e era correspondido. Nas cartas, o Fleury diz: Eu faço isso por causa disso e daquilo. Essa mulher é irmã do nosso colega (jornalista) Raimundo Rodrigues Pereira, do Movimento, do Opinião. Entre outros detalhes, o Fleury tinha prendido todos os irmãos dela. O nome é Leonora de Oliveira.
Como eles se conheceram?
É uma história fantástica porque um dos irmãos estava estudando numa universidade em Moscou e perdeu o passaporte na Rússia. Era uma situação aflitiva. Ela procurou um advogado, colocou a questão e ele disse: A gente pode resolver isso com o Fleury. Ela foi procurá-lo no Dops. Ele conseguiu o documento, que era muito difícil, envolvia o Itamaraty. Resolvido, saíram para um jantar de agradecimento. Se encontraram outras vezes e começou um romance fortíssimo. Eu fui ético, avisei a viúva: Olha, esse livro tem a pretensão de ser histórico, eu não tenho como deixar de falar nisso. Compreendo que pode ser desagradável para a senhora, mas não tenho o que fazer. O livro tem esse Fleury fora do expediente. É o policial mais famoso do Brasil que frequenta nas noites lugares como a Boca do Lixo, que ele adorava.
A esquerda sempre passou uma imagem meio monstruosa, de um sujeito mórbido.
Eu conto uma cena que eu vi, num prédio da polícia que funcionava a Delegacia de Roubos, e que tinha uma sala de imprensa num dos andares. Um dia desci pelas escadas, cheguei no terceiro andar e vi uma fila enorme. Depois eu descobri que era uma fila de presos esperando a vez de irem para o pau-de-arara. Isso era uma rotina de trabalho na polícia da época, entendeu? Me lembro também que o prédio tinha um saguão de entrada com um letreiro gigantesco em cima dos elevadores: Contra a pátria não há direitos. O know-how da tortura é civil. O Fleury foi para o Dops com esse estilo e com o pessoal que é da delegacia de roubos. Então a intelligentsia brasileira passa a ser perseguida literalmente por caçadores de ladrões.
Houve outros agentes como o Anselmo?
Houve. O Fleury era um homem com uma vocação policial muito grande, era obstinado, persistente, tinha picardia, ímpeto, vontade, ânimo, fibra. Um dos habitantes dos porões do Doi-Codi me disse que o Fleury e a equipe dele fizeram sozinhos o que os Doi-Codis do Brasil inteiro não fizeram. Tornou-se um ídolo da segurança nacional a ponto de o Exército ter ciúmes doentio e procurar alijá-lo. Ele foi afastado e colocado em uma delegacia da periferia. Quando aconteceu isso, o serviço de informações da Marinha, que era e é muito bom, se aproximou imediatamente do Fleury. Eles chegaram ao Câmara Ferreira, que foi o sucessor do Marighella, através de um preso político que tinha sido capturado em Belém do Pará. Esse preso tinha sido baleado, estava no hospital militar de Belém e o Fleury foi lá com o serviço de informações da Marinha, e o doutrinou, do mesmo modo que fez com o Anselmo. Ele foi solto, mas para todos os efeitos, fugiu. E ele começou a fazer o monitoramento do Câmara Ferreira até sua localização, prisão e morte em São Paulo. Isto entra num outro ponto incômodo da luta armada que é uma vulnerabilidade impressionante.
A entrevista continua na página 3.


