Embora crítico, 'Mickey 17' é obra menor de Bong Joon-ho
Em cartaz, o novo filme do diretor sul-coreano não repete a genialidade de "Parasita”, mas é instigante na crítica à contemporaneidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de março de 2025
Em cartaz, o novo filme do diretor sul-coreano não repete a genialidade de "Parasita”, mas é instigante na crítica à contemporaneidade
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Como é difícil superar, deve ter pensado o próprio Bong Joon-ho ao voltar a dirigir depois da embriaguês do sucesso. Ele, o pai bombástico do brilhante “Parasita” que, em um já distante 2019, fez história no Oscar por ter sido o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o prêmio de melhor filme, além de outros três, incluindo a direção. E antes disso o sul-coreano havia conquistado a Palma de Ouro em Cannes.
O cineasta decidiu colocar todas suas fichas numa só cartada, neste retorno à escritura e à direção, nesta volta tipo 'science fiction' extremamente difícil com "Mickey 17", em segunda semana de exibição em várias salas de Londrina. O cinema de Joon-ho tem se dedicado consistentemente a denunciar as devastações sociais, políticas e ambientais causadas pelo capitalismo, recorrendo à sátira, à alegoria, por vezes à farsa e quase sempre à violência. É uma virtude, sem dúvida. E seu primeiro filme pós “Parasita” funciona como um cruzamento entre suas anteriores incursões na ficção científica, “Snowbreaker” (2013) e ‘Okja’ (2017), na medida em que também retrata um mundo futuro baseado na desigualdade e na exploração econômica, dominado por elites narcisistas e extremamente cruel com o mundo animal.
SÁTIRAS A TRUMP
O épico que surge para o espectador, carregado de sátiras políticas ao bufão Trump (representado no personagem do delirante e musoliniano Mark Ruffalo) é sobre um pobre coitado que, sobrecarregado de dívidas, decide se tornar um "Dispensável" ou, o que dá no mesmo, um trabalhador descartável durante uma expedição enviada para colonizar o mundo congelado de Niflheim. Quem toma a frente do elenco é um Robert Pattinson intermitente, ou seja, às vezes ele é muito bom e outras vezes literalmentre sobrando em cena, exagerando até. O que significa que ele, Mickey, pode morrer repetidamente porque uma máquina de impressão regenera seu corpo com a maioria de suas memórias intactas. Acima de tudo, muito traumático. Tristeza absoluta.
Assim, o protagonista é envenenado enquanto testam novos medicamentos nele, o enviam nas missões mais perigosas, pregam peças nele. Gato e sapato, já que, enfim, sabem que podem ir em qualquer direção sem que ninguém se sinta culpado. Uma metáfora para a exploração capitalista – diferentemente de todas as ficções anteriores de Joon-ho, “Mickey 17” é a primeira que mira explicitamente nos Estados Unidos. E, no meio, aparecem os verdadeiros habitantes nativos do planeta, uma espécie de vermes de diversos tamanhos que Kenneth “Trump” Marshall (o já citado Ruffalo), líder da colônia, quer destruir.
Um projeto arriscado, bastante irregular, uma bagunça caótica (existe bagunça não caótica?) e às vezes demasiado longa (137 minutos ?!) que, no entanto, consegue causar preocupação e choque apesar de um certo humor que não chega a ser comédia nem finge ser. É verdade: neste planeta há zilhões de seres humanos que não se importam com a vida dos outros. Até o seu sofrimento pode provocar neles um meio sorriso assustador.

TECNOLOGIA ABERRANTE
Protagonizado por um Robert Pattinson que exibe aptidão sem precedentes para o pastelão, dando vida a dois clones de um sujeito condenado a morrer e a ressuscitar indefinidamente por causa de uma tecnologia aberrante, na verdade “Mickey 17” pretende ser acima de tudo um apelo contra as atitudes colonialistas, xenófobas, exploradoras e implacáveis de Donald Trump – as alusões inequívocas a este louco da corte funcionam explicitamente como paródia banal e fácil – bem como contra a mentalidade de rebanho que vota neste tipo de ser, razão pela qual não se preocupa em explorar os dilemas éticos, psicológicos e filosóficos derivados da clonagem humana.
De qualquer forma, o filme está tão ocupado tentando controlar o caos por excesso de ideias, subtramas e personagens, que negligencia seu aspecto satírico, exibindo-o apenas através de caricaturas entre óbvias e grosseiras e, consequentemente, subtraindo a convicção (presente no discurso final de esperança) na capacidade do ser humano de derrotar a tirania. A visão de Bong, embora terrivelmente crítica, é também ingênua em suas abordagens e resoluções, a meio caminho entre filme de aventura infantil e distopia tremendamente derrotista para com a nossa espécie.
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