EMBAIXADOR DA VIOLA DE ARAME
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de julho de 2000
Ranulfo Pedreiro 
O violeiro e pesquisador Roberto Corrêa, que se apresenta hoje no Ouro Verde, gravou diversas manifestações populares do Paraná em um disco que será lançado até outubro
O Paraná é um importante centro de manifestações populares. A frase, que ainda provoca olhares de dúvida, ganhou respaldo na pesquisa de campo. Durante dois anos Roberto Corrêa, estudioso brasileiro da viola de arame ou caipira , rodou pelo Estado gravando peças como romarias, fandangos, folias de reis, congadas, rezas cantadas e até recomendações de almas. O material será reunido em um CD que deve sair até outubro, com apoio da Secretaria Estadual de Cultura.
Corrêa está em Londrina, onde participa da 20ª edição do Festival de Música da cidade. O violeiro vai levar um pouco do sertão para o recital Nas Cordas da Viola, que apresenta hoje, a partir das 20h30, no Cine Teatro Ouro Verde. Desde segunda-feira ele está ministrando um workshop, que termina hoje, sobre o instrumento.
O recital aborda o mundo da viola não só na música caipira, mas também em músicas modernas. Eu conto causos, mostrando o sertão e transmitindo toda a potencialidade do instrumento. Vou tocar desde Villa-Lobos até moda de viola, comenta.
O músico está entusiasmado com as pesquisas realizadas no Estado, e garante que existe material para mais de um CD. No sábado passado fizemos a última gravação, da romaria de São Gonçalo, em Inácio Martins. O Paraná tem um universo bastante expressivo, muito rico culturalmente. É importante que as pessoa tenham acesso à cultura de seu Estado, ressalta.
Roberto Corrêa, que vive em Brasília, já desconfiava da variedade existente em terras paranaenses: Existem coisas que ficam guardadas na memória, e quando a pessoa vive no interior e tem ligações com a fé, essas tradições são mantidas. Com as romarias, vêm outros tipos de música como o fandango e a catira. Eu fiquei muito contente, vai sair um belo disco.
Levantamento semelhante já foi feito por Corrêa na região do entorno do Distrito Federal, e resultou no disco Sertão Ponteado. Lá, o pesquisador também se surpreendeu com a diversidade do material.
Eu acho que isso vai ser importante até para despertar no Paraná as pessoas que acham que o Estado não possui muita riqueza. Aqui tem uma cultura popular forte, chegamos a gravar até incelenças e recomendações de almas, é um material fantástico.
Mas as pesquisas não encerram aí. Roberto Corrêa também estuda as origens e a história da viola, e está há 15 anos preparando um livro que pretende sintetizar seu conhecimento sobre o assunto. Além disso, o músico tem mais dois discos na gaveta e se prepara, pela primeira vez, para tocar na África, em Maputo (Moçambique), representando o Brasil na União dos Países de Língua Portuguesa, dia 18.
O livro vai se chamar A Arte de Pontear a Viola, e será acompanhado de um CD com 72 pequenas peças. A obra vai trazer uma parte especulativa, sobre a história do instrumento, e uma parte que reúne o método de ensino que Roberto Corrêa desenvolveu na Escola de Música de Brasília, onde leciona.
Como a viola é um instrumento pouco estudado, a obra já está sendo considerada fundamental. O livro deve trazer a sistematização das técnicas de violeiros antigos que fui aprendendo, e vai abordar a música tradicional, além de lançar conceitos novos e reunir todos os ritmos da música caipira, acentua. O lançamento deve sair em novembro.
Por causa do livro, outro projeto foi adiado. Neto de violeiro, Corrêa compôs várias músicas sobre letras do avô. As composições já estão prontas, mas ainda não houve tempo para entrar no estúdio. O CD, que vai se chamar Temperança, ficou para o ano que vem.
Um outro álbum, porém, deve sair em breve. É o Viola de Arame Tradição Encordoada, que reúne dois CDs. Um deles com gravações de antigos violeiros brasileiros e portugueses, e outro com interpretações do próprio Corrêa.
Buscando a origem do instrumento em Portugal, o pesquisador descobriu que se tornou refém da própria obra. Em 1983, ele publicou o livro Viola Caipira, o primeiro lançado no Brasil, que ajudou a divulgar o instrumento. Posteriormente, Corrêa descobriu que a viola tocada no País é a mesma de Portugal.
Em A Nova Arte da Viola, publicado lá em 1789 por Manuel da Paixão Ribeiro, Corrêa chegou às diferenças entre a viola de cordas de tripa e a viola de cordas de arame. Desde então, o músico vem batalhando para difundir o instrumento como viola de arame em vez de viola caipira.
Nas Cordas da Viola Recital de viola de arame e viola de cocho apresentado por Roberto Corrêa. Hoje, às 20h30, no Cine Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). O evento faz parte do 20º Festival de Música de Londrina. Ingressos na bilheteria a R$ 3,00 (estudantes e funcionários da UEL pagam R$ 1,50).


