Xangai tanto me faz pensar em Nova York quanto em São Paulo. Por se tratar de um gueto vertical, onde os edifícios mais suntuosos cotejam outros inteiramente decadentes. O que difere é o cartaz publicitário. Pela escrita ideogramática e pelo tamanho gigante do texto.
Sei da importância da escrita na China, sei que os chineses usam o mesmo termo, ‘‘wen’’, para ela e para a civilização, porém fico alegremente surpresa. Estou em um país onde o valor da imagem não superou o do texto, que é sagrado. O imperialismo americano não tomou conta de tudo e a verdadeira muralha da China é a escrita.
Uma hora e o táxi está no Bund, o cais à beira do Huangpu, o verdadeiro símbolo de Xangai. Também o Bund, pela arquitetura neoclássica dos anos 30, lembra Nova York e eu logo reconheço o Peace Hotel onde vou ficar.
Trata-se de um hotel no estilo do Copacabana Palace, construído pelo multimiliardário Victor Sassoon, que enriqueceu com o comércio do ópio e reinvestiu todo o dinheiro em cavalos e no setor imobiliário de Xangai. Tem no topo uma pirâmide, onde há um restaurante com a melhor vista para a cidade.
Tudo no Peace lembra um luxo antigo, o recepcionista que está de smoking preto e flor vermelha na lapela, o saguão de mármore, os lustres art déco.
Os pontos turísticos que pretendo visitar são o Bazar Yuyuan e o Museu de Xangai. Começo pelo Bazar, porque já é hora do almoço e, segundo o guia, trata-se de um lugar ideal para almoçar.
Sucessão de pagodes onde todo o artesanato que se produz na China está à venda, ele é o império extravagante e multicolorido do kitsch. Como nestas lojas, não sinto vontade de comprar nada, olho rapidamente o Bazar e procuro o Lubolang, restaurante indicado pelo recepcionista do Peace Hotel. Trata-se de um restaurante imenso, decorado com os motivos tradicionais. Parece o Silver Palace, na Bowery Street, em Nova York.
Peço frango e uma sobremesa. Para beber, chá de jasmim. O chá, infelizmente, tem um gosto esquisito. De terra. O bolinho a vapor é grande demais e eu não tenho como abocanhar e engolir à maneira dos chineses. O frango no limão, além de frito, é açucarado. Um atentado à minha alimentação light. Quanto à sobremesa, foi servida junto com a entrada e eu, não tendo entendido que o doce na China não vem no fim, simplesmente reenviei.
No jardim do Bazar, eu me esqueço do almoço. Feito no século 16, durante a dinastia Ming, foi bombardeado durante a guerra do ópio no século 19, mas hoje está inteiramente restaurado. Trata-se de um labirinto onde, não sabendo da entrada e da saída.

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