No século 19, o impressionismo inaugurava uma pintura interessada em captar a luz que se colocava entre o olho e o objeto retratado. Tornar visível a atmosfera criada pela vibração luminosa era o objetivo dos artistas da época, muito mais do que a aparência de sua representação, afinal, tal tarefa a fotografia, nascente, poderia desempenhar com muito mais precisão. Se, para o impressionismo, não era a beleza em si do objeto o motivo de sua pesquisa plástica, visual, então a tela pintada tinha a finalidade de mostrar um instante, uma passagem, ou seja a percepção do entorno do objeto em relação ao ponto de vista do observador.
Essa também parece ser a sensação transmitida por alguns cantos e sons dos índios brasileiros, de ritos tribais tailandeses e, contemporaneamente, pela música de compositores como Karlheinz Stockhausen. Criando intervalos entre notas e sons, a música abre brechas, frestas que permitem o contato do sensível com o real, como se fosse uma capa translúcida que unisse a natureza com a cultura. Não é exatamente isto que realiza a respiração, unindo o ambiente interno com o meio externo? O corpo como lugar de passagem?
À essa convenção, o artista e professor da Universidade Estadual de Londrina, Danilo Villa, se propõe, junto de seu trabalho, ser ‘‘uma espécie de passagem ou impedimento às coisa fugidias e neste momento, o instante, tornar-se uma possibilidade’’ (ver catálogo da V Semana de Arte de Londrina, 1998). Captar este espaço/tempo através da arte é ampliar as formas de perceber a vida.
Através, aliás, é o nome de uma instalação do artista Cildo Meireles, que costuma criar obras onde a percepção imediata do que é visto é questionada, colocando o observador em estado de alerta, para que a sensação e não a lógica linear, seja a ferramenta para a compreensão de seu trabalho. No caso, o artista se utilizou de diversos materiais transparentes e objetos que impedem a passagem das pessoas, mas não do olhar, lançando mão de vidros, tules, redes, cercas e grades. No centro da instalação, um aquário com peixinhos transparentes sugere a continuidade da visão, entre e através de planos, indefinidamente.
Assim, o que importa não é o aspecto final de uma obra que se propõe a captar o ambiente, sua forma ensimesmada, fechada, mas a troca permite realizar entre o meio e a sua natureza interna, relacionando o contexto, o lugar e o tempo onde ela, a obra, está inserida. Deixar-se contaminar por este entorno, atravessar o contorno dos corpos, é perceber o quanto o mundo e nós mesmos somos feitos da mesma matéria, da mesma luz.
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