Em toda a parte, o espanto
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de setembro de 2010
Ubiratan Brasil<br>Agência Estado 
O poeta Ferreira Gullar completou 80 anos na sexta-feira, ao lado de amigos, mas a data vinha sendo motivo de comemoração ao longo do ano. Não apenas pela conquista de vida - ele continua exibindo uma saúde invejável -, mas também por coincidir com o lançamento de um novo livro, algo que não acontecia desde 1999: ''Em Alguma Parte Alguma''. São 59 poemas inéditos em que o poeta trata desde o exílio (experiência que viveu na Argentina durante a ditadura militar) até frutas podres.
Gullar lançou a obra no Rio, onde vive, rodeado de amigos e fãs. Uma celebração ao ato criativo, pois Gullar costuma dizer que não planeja o surgimento de um livro. ''Não tenho planos'', disse à reportagem no ano passado. ''Aos poucos, a obra vai tomando forma, surgindo caminhos que definem o rumo dos poemas. E é o livro que tem de me dizer que está pronto.''
Essa incerteza consentida marca também o surgimento dos versos - Gullar conta que o poema nasce do espanto, sem regras definidas, um momento em que a vida lhe revela algo desconhecido. ''Você acorda e, ao olhar para o céu, observa uma determinada nuvem azul e aquilo provoca um choque. Como descrever aquilo? É nesse processo que invento uma forma de dizer, descubro um caminho diferente no próprio realizar do poema que é incorporado ao trabalho e essa rotina acaba se repetindo na feitura de outros poemas.''
É o que explica a diversidade de assuntos de ''Em Alguma Parte Alguma''. O ''Jasmim'', por exemplo, surgiu a partir de uma epifania provocada pelo perfume da flor quando o poeta deixava a casa da namorada Cláudia Ahimsa. Já a predileção por frutas podres como tema, desta vez, é contemplada com a banana. ''No livro, pulsa a urgência da vida por meio de um olhar que se lança tanto microscopicamente à textura espessa das frutas condenadas ao apodrecimento, quanto telescopicamente à solidão esquiva e silenciosa do cosmo'', observa, em um dos prólogos do livro, o poeta e professor Antonio Carlos Secchin, um dos maiores especialistas na obra de Ferreira Gullar.
''Ele é o poeta do corpo e da matéria que se dão, e não se dão, na sua alteridade, ao olhar perplexo do eu'', completa, em outro estudo crítico publicado no livro, Alfredo Bosi, professor de literatura. Nesse sentido, um bom exemplo é o poema ''Reflexão Sobre o Osso da Minha Perna'' que, ao ser lido e mencionado na última Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em agosto, causou rebuliço na plateia. Gullar contou que a inspiração veio quando se levantava e julgou ouvir o som dos ossos trincando. Surgiram, assim, os belos versos: ''Este osso / dito perônio / é, sim, / a parte mais mineral / e obscura /de mim / já que à pele / e à carne / irrigam-nas o sonho e a loucura''.
Outra boa surpresa é oferecida pelo livro ''Zoologia Bizarra'' (Casa da Palavra, 88 páginas, R$ 55) em que Gullar escreveu frases poéticas e irônicas para as colagens que fez a partir do recorte de correspondências e convites. ''Foi meu gato, que se chamava Gatinho, que me revelou a importância do acaso na expressão artística'', escreve. ''Ao desarrumar os recortes coloridos, mostrou-me uma nova composição em que dialogavam a ordem e a desordem, o estabelecido conscientemente por mim (o desenho) e o que ele, gato, involuntariamente (?) provocara.'' O resultado é uma adorável brincadeira que também se pode levar a sério.
Serviço:
- Em alguma parte alguma
Autor - Ferreira Gullar
Editora - Record
- Zoologia Bizarra
Autor - Ferreira Gullar
Editora - Casa da Palavra
Quanto - R$ 55


