Mario CesarJoaquim Carvalho da Silva: ‘‘Utilizei dados históricos para ambientar o romance’’Nos idos de 1940, muitos colonos chegaram na região de Porecatu para desbravar a mata, se apossar da terra e fazê-la produzir. A ação era incentivada pelo governo do Paraná. O interventor Manoel Ribas divulgava terras gratuitas para quem se estabelecesse na região, produzisse e morasse ao menos por seis anos na propriedade pagando impostos. Quem cumprisse essas exigências ganharia o título definitivo dos lotes que plantava.
O anúncio atraiu trabalhadores rurais de várias regiões, que sonhavam com a própria terra e produção. Mas as notícias das doações atiçaram alguns proprietários, que, aos poucos, esticaram as cercas de suas propriedades. Nesse sertão, que incluía a região onde hoje se encontram os municípios de Guaraci, Centenário do Sul, Mirasselva, Jaguapitã e Florestópolis, existiam também terrenos escriturados. Muitos deles foram confundidos com terras de ninguém.
A situação teria se complicado porque os governos seguintes teriam ignorado o acordo e realizado novas doações. Enquanto os loteamentos se misturavam - cercas apareciam da noite para o dia - numa grande confusão, a violência começava a tomar conta do lugar.
Alguns colonos não se conformaram com a iminente perda da terra, ao mesmo tempo que fazendeiros e jagunços se esforçavam para expulsá-los do lugar. Os confrontos começaram com pequenas emboscadas, para se avultar em manobras pela região. Ciente dos conflitos, o Partido Comunista teria se infiltrado no local para organizar os colonos e testar técnicas de guerrilha rural.
A trama Esse contexto, explicado pelo escritor Joaquim Carvalho da Silva, serve de introdução para o romance ‘‘Terra Roxa de Sangue - A Guerra de Porecatu’’, que o professor do departamento de Letras da Universidade Estadual de Londrina lança hoje, a partir das 20 horas, no Espaço Cultural Livraria Arles, em Londrina.
Com um texto ágil e bem-elaborado, o livro conta a história de João Firmino, um trabalhador rural recém-casado com Rosa. O rapaz participa com assiduidade das reuniões em que trabalhadores rurais discutem idéias esquerdistas. Nas reuniões, os posseiros questionam conceitos de propriedade e se convencem de que têm direito a um pedaço de chão. A cada encontro os trabalhadores ficam mais desejosos de saírem da situação de ‘‘explorados’’, como dizem os organizadores dos debates.
A vida segue esse rumo: trabalho e reunião. Até que a notícia de doações de terras na região de Porecatu atiça os ânimos. Uma equipe de reconhecimento visita a área e volta com boas notícias. Pouco tempo depois os trabalhadores abandonam a fazenda em busca de seus ideais.
Nas novas terras, os colonos abrem a mata e começam a produzir. O dia-a-dia segue tranquilo por alguns anos, e os homens continuam realizando reuniões para discutir seu futuro. Até que um companheiro é assassinado. Os posseiros começam a sofrer pressões, e os conflitos e emboscadas afloram pelo sertão.
Violência As ações, no romance, são violentas. Além dos tiroteios, ocorrem uma série de execuções, estupros, empalações e esfolamentos de homens, mulheres e crianças. Propriedades são queimadas, produções perdidas, criações destruídas. A cada confronto acentua-se em João Firmino e seus companheiros a convicção de não entregar a terra, enquanto cresce a vontade de vingar o sangue dos companheiros.
Os fatos ganham repercussão nacional, com a presença de repórteres de revistas, jornais e rádios acompanhando o desenrolar da briga. A parte final do romance conta com alguns ‘‘depoimentos’’ de personagens que ‘‘sobreviveram’’ aos conflitos.
‘‘Utilizei dados históricos para ambientar o romance. Sempre gostei destes assuntos’’, comenta Joaquim Carvalho, frisando que os personagens são fictícios. O texto foi escrito há cerca de dez anos, mas só agora ganha publicação, realizada pela Editora da UEL. ‘‘Este livro não visa nenhum lucro, escrevo mais pelo prazer, pela satisfação’’, assegura o professor, que ainda possui dois trabalhos na gaveta, sem data programada para publicação.
O lançamento contará ainda com apresentação do coro Madrigal de Londrina, com regência do maestro Othônio Benvenuto. O livro pode ser encontrado na livraria da Editora da UEL, contatos pelo telefone (043) 371-4691, ou na própria editora pelo telefone (043) 371-4673, e custa R$ 10,00.
qTerra Roxa de Sangue - A Guerra de Porecatu - Ficção de Joaquim Carvalho da Silva que será lançada às 20 horas no Espaço Cultural Livraria Arles (Avenida JK, 1615, em Londrina).

mockup