Eram tempos de crise, e o futuro da indústria fonográfica era nebuloso em meados de 2003; nesta época, o mercado de discos se resumia a uma sangrenta guerra judicial, envolvendo as principais gravadoras e as dezenas de milhares de usuários - chamados de 'piratas' - que trocavam arquivos de aúdio através do compartilhamento global na internet. Em meio ao intenso fogo-cruzado, o gigante Napster, e outros programas similares, foram considerados ilegais e obrigados a encerrar as atividades; mesmo assim, o estrago estava feito. O mundo da música nunca mais seria o mesmo.
Observando de longe o cenário, o CEO da Apple na época, Steve Jobs (1955-2011), dono de uma perspicácia inigualável no empreendendorismo tecnológico, começou a pensar em uma solução sustentável para o conflito. Para Jobs, nenhum dos dois lados estava completamente errado na briga: a culpa maior recaía no modus operandi da indústria, que era dinossáurica, lenta, e não atendia às expectativas do público, cada vez mais faminto por informação rápida e de preço acessível.
Depois de muito trabalho, Jobs, famoso por seu grande poder de persuasão, conseguiu convencer as cinco maiores gravadoras do mundo a tomarem uma decisão conjunta: liberarem a maioria de seu catálogo de músicas para os servidores da loja virtual iTunes. Além disso, mais de dois mil selos independentes também entraram no acordo, disputando espaço na prateleira virtual da Apple em pé de igualdade com gigantes como EMI, Universal, Warner, Sony Music e BMG. As regras do jogo eram simples: cada música custaria 99 centavos da moeda local (no Brasil, a compra ainda é feita em dólar). Dessa maneira, cada gravadora lucraria menos com a venda de seu produtos, mas todas conseguiriam dinheiro suficiente para sobreviverem à crise. A ideia de Jobs, que torceu o nariz de muitos magnatas fonográficos, acabou por salvar uma indústria decadente.
Sete anos após o lançamento nos EUA, a loja virtual mais famosa do mundo expandiu seu catálogo para todos os ramos do entretenimento: são mais de 20 milhões de músicas disponíveis - algumas exclusivas, que só podem ser encontradas via iTunes - além de milhares de filmes, séries e e-books, cujos preços variam de alguns centavos até o máximo de 19 dólares. No começo de 2010, a Apple foi acusada de monopólio pela concorrência, porque mais de 88% das vendas de músicas virtuais no mundo são feitas através do iTunes.

Fatia brasileira
Parece que, este ano, o Papai Noel chegou mais cedo para os brasileiros aficionados por músicas. No dia 13 de dezembro, a Apple anunciou o aguardado lançamento oficial da Apple Store Brasil, repleta de canções exclusivas de consagrados artistas nacionais - por exemplo, já estão disponíveis as discografias completas de Roberto Carlos e de Marisa Monte. Agora, a pergunta é: o mercado brasileiro vai abraçar esta ideia?
''Eu costumo comprar música em três ou quatro sites, todos especializados no gênero eletrônico'', declara o DJ londrinense Júnior Ortega, apontando diversas vantagens nesse tipo de compra. ''É uma forma rápida, quase imediata, de ter uma música que você quer. E os arquivos são da mais alta qualidade. Para mim, como músico, isso é essencial'', afirma o músico, incerto sobre o futuro da iTunes brasileira.
''No Brasil, para falar a verdade, não sei se a moda vai pegar. Mas, é o certo. Se a pessoa quer prestigiar o artista e a qualidade da gravação, tem que comprar'', resume o DJ, motivado principalmente pela falta de qualidade disponível gratuitamente pela internet. ''Você aumenta o volume, e o som fica rachado, parecendo aqueles de radinho de vó antigo, sabe?'', completa Ortega, rindo.

Preço de um CD
Mesmo com a aparente empolgação por parte das gravadoras brasileiras, a compra virtual de músicas está longe de ser unanimidade por aqui. ''Não vale a pena comprar música no iTunes por dois motivos: um, que eu posso achar de graça, se for apenas para ouvir de vez em quando e, dois, se eu realmente gostar da banda, compro o CD original, por quase o mesmo preço que pago pelas músicas digitais'', analisa o advogado Henrique Macedo, apontando que um disco custa em torno de R$ 25, praticamente o mesmo preço que você paga se comprar 12 músicas no iTunes.
''Talvez compense para quem só gosta de ouvir hits. Eu, por exemplo, escuto bandas que são conceituais, por isso gosto de ouvir o álbum inteiro, olhar o encarte, fazer coleção'', completa Macedo, criticando a tendência de 'picotar' o disco, transformando o trabalho do artista em apenas uma série de singles. ''Ninguém mais presta atenção no disco como um todo. Isso é o que acontece hoje em dia. O sucesso do iTunes é fruto dessa tendência'', desabafa.
Para o bem ou para o mal, o caso da Apple apenas reflete a migração do olhar das novas empresas americanas para o emergente consumidor brasileiro - outras grandes companhias virtuais que aportaram por aqui este ano foram a Netflix, a loja virtual do X-Box e a Playstation Network Brasil. Pelo visto, o país está, finalmente, mordendo o seu pedaço da maçã.

Imagem ilustrativa da imagem Em terra de 'piratas', quem vende barato é...
| Foto: INFOGRÁFICO
mockup