Em tempos de guerra, o Oscar reassumiu a lógica dos vencedores e vencidos.
Os atores Kirk Douglas e Michael Douglas (pai e filho) sobem ao palco para anunciar o melhor filme. Com o envelope nas mãos, Kirk se demora num suspense. Michael provoca: ''Você supostamente deveria dizer: ''O Oscar vai para...'''. Kirk desobedece: ''Não. O vencedor é ''Chicago'.''
Cai por terra a fórmula de anúncio politicamente correta, adotada há anos, na tentativa de desconhecer que existem derrotados na competição. Está declarado o triunfo de ''Chicago'' e, com ele, a revalorização do gênero musical, considerado pelos norte-americanos expressão típica de sua excelência e ausente do prêmio de melhor filme no Oscar desde 68 (''Oliver'').
Dirigido por Rob Marshall e estrelado por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones (nora de Kirk Douglas, grávida de um filho de Michael), ''Chicago'' recebeu seis estatuetas, das 13 a que foi indicado-montagem, direção de arte, figurino, som e atriz coadjuvante (Zeta-Jones), além de filme.
''Gangues de Nova York'', de Martin Scorsese, foi o grande derrotado da noite - nenhuma vitória, em dez indicações. A Academia ignorou o épico sobre a gênese de Nova York no qual a Miramax gastou US$ 120 milhões e quase um ano de disputa com o cineasta pelo corte final do filme. A câmera buscou Scorsese na platéia do Oscar diversas vezes. O diretor estava impassível.
Ao manter a cerimônia mesmo quando os Estados Unidos estão em guerra contra o Iraque, Frank Pierson, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, disse que era ''especialmente importante seguir com um evento cultural como o Oscar, num tempo em que os valores americanos são questionados ao redor do mundo''.
A vitória do francês Roman Polanski como melhor diretor (por ''O Pianista'') teve caráter de surpresa histórica. Polanski não foi à cerimônia porque pode ser preso se entrar nos Estados Unidos. Ele deixou o país em 78, acusado de estuprar uma garota de 13 anos. Poucos dias antes da entrega do Oscar, Samantha Geimer, a suposta vítima, reiterou à imprensa que havia feito sexo não consentido com o diretor, mas disse que os acadêmicos deveriam votar no filme que julgassem merecedor.
O fato de a França ser o mais relevante opositor dos Estados Unidos em sua decisão de atacar o Iraque completa o pano de fundo geopolítico da decisão.
''O Pianista'' venceu também roteiro adaptado e ator (Adrien Brody, 29, que se tornou o mais jovem vencedor da categoria).
O cineasta polonês Krzystof Zanmussi disse que o fato de ''O Pianista' tratar do extermínio de poloneses e judeus e relacionar isso com a realidade atual, definitivamente, influenciou o grande reconhecimento que o filme teve''.
O melhor filme estrangeiro -''Ningendwo in Afrika'' (Em Nenhum Lugar na África), de Caroline Link - é sobre a vida de uma família judia na África, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Segundo a crítica internacional, o filme escorrega no conservadorismo ao abordar a questão racial e o colonialismo. O melhor documentário foi o antiarmamentista ''Jogando Boliche por Columbine'', de Michael Moore, que fez o discurso antiguerra que mais pesou na cerimônia. E o rapper Eminem derrotou os pacifistas do U2 na categoria melhor canção. Hollywood voltou a dividir o mundo entre os que ganham e os que perdem, mas não sem surpresas no resultado final.

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