EM RITMO OLÍMPICO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de agosto de 2000
Fernando Miragaya TV Press 
Sobre uma prancha, em pleno mar australiano, Glenda Koslowsky sonhava participar de uma Olimpíada. No entanto, a então tetracampeã mundial de bodyboarding não imaginava que o sonho viraria realidade, mas que ela estaria do outro lado das provas. Agora jornalista, Glenda embarca para Sydney no final de agosto não com uma prancha debaixo do braço e sim com um microfone. Ela integra a equipe de repórteres que a Globo está enviando à maior cidade australiana para a cobertura dos últimos Jogos Olímpicos do milênio. Quando vejo a vinheta das Olimpíadas meu coração dispara. Fico pensando no que vai acontecer lá, diz uma ansiosa Glenda.
A expectativa é justificável. Afinal, a jornalista carioca de 26 anos está há apenas quatro na Globo, onde começou como apresentadora do extinto Placar Eletrônico. Em razão deste pouco tempo na emissora, Glenda alega ter ficado surpresa quando soube que havia sido escalada. Ela estava viajando, fazendo uma matéria para o Esporte Espetacular e ligou de madrugada para casa para falar com o marido, o nadador Cassiano Leal. Foi quando ele deu a notícia: Glenda estava na lista para as Olimpíadas. Até perguntei se ele estava tirando sarro com a minha cara, garante.
Refeita da surpresa, Glenda começou a traçar seu planejamento para os Jogos Olímpicos. Como toda atleta que se preza, ela passou a pensar em se preparar. Mas em vez das ondas das praias, era hora de mergulhar em publicações especializadas sobre Olimpíadas. A repórter passou a devorar livros que contam a história do evento esportivo, além de revistas sobre as diversas modalidades. Ao mesmo tempo, vem estudando as regras dos principais esportes e recortando tudo o que sai nos jornais sobre atletas e recordes. Não dá para chegar numa Olimpíada sem saber nada. Você pode cruzar com uma pessoa na rua que pode ter sido um campeão olímpico, acredita.
Mas Glenda também vai ter de se preparar para lidar com a emoção. Por já ter sido atleta, a repórter deixa transparecer um discreto envolvimento com o meio esportivo. Não raro, a jornalista fica com os olhos marejados após fazer uma matéria ou apresentar uma notícia. Como aconteceu em um Globo Esporte durante os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, no ano passado. Glenda havia feito a cabeça a abertura da matéria feita pelo locutor sobre uma medalha de ouro brasileira conquistada no atletismo.
Ao ver a reportagem, começou a chorar e, para seu desespero, o então editor-chefe Marcos Malafaia falou que seria ela quem iria dar o Boa tarde, ao contrário do que costumava acontecer, com João Pedro Paes Leme encerrando o telejornal diretamente de Winnipeg. Estava em prantos, com o rosto vermelho. Ainda bem que foi brincadeira, lembra.
Esta emoção à flor da pele, porém, pode trazer problemas para um repórter, mas Glenda garante não estar preocupada com isso. Quero me emocionar e passar isso para o telespectador, avisa. Para ela, é necessário apenas estar atenta ao limite entre a emoção e a pieguice. Esse limite entre o comovente e o cafona é um fio de cabelo, define. A repórter admite, porém, que deve ser quase impossível não se envolver com a atmosfera olímpica. Até porque disputar os Jogos era o sonho da ex-bodyboarder. Ao mesmo tempo, isso pode funcionar como um agente facilitador para a jornalista. Entendo o que se passa com o atleta, pois sei o que é competir, ganhar e perder, valoriza.
Mesmo assim, a cada dia a jornalista vai apreendendo um pouco mais sobre as Olimpíadas. Além dos livros e revistas, ela está conhecendo um pouco mais dos esportistas brasileiros fazendo matérias para o Perfil Olímpico, esquetes que a Globo veicula durante a programação. Ao mesmo tempo, Glenda anda para lá e para cá com um livro sobre a Austrália, para conhecer um pouco mais sobre a cultura e a história da ilha-continente. Fiquei impressionada com a história dos aborígenes, que só foram reconhecidos como cidadãos nos anos 60, espanta-se a repórter, referindo-se ao primeiro povo australiano, cujos membros nem constavam nos censos demográficos do país. O mesmo país, onde há pouco tempo, ela estava pegando onda e sonhando com as Olimpíadas. Não realizei o sonho como atleta, mas vou realizá-lo como repórter, comemora.


