EM PAZ COM A VIDA
Em ‘‘Tambores de Minas’’, Milton Nascimento volta a emocionar

Antônio Mariano Júnior


Milton Nascimento: ‘‘Tambores de Minas’’ não é um disco feito para o cérebro; é direcionado ao coraçãoA
maioria das músicas que compõem o repertório é conhecida (inclusive ‘‘Nos Bailes da Vida’’ lá está), a gravação é ao vivo (outra contribuição para a banalização do gênero) mas ‘‘Tambores de Minas’’, novo disco de Milton Nascimento, foge do lugar-comum por um motivo muito, muitíssimo especial: Milton volta a comover, coisa que há algum tempo ele havia esquecido de fazer.
Milton está cantando com o coração. Seu canto se revela emocionado e emocionante; faz eriçar pêlos. Revela-se novamente brilhante, dono de um timbre que outrora estava à serviço da tristeza e da melancolia; do cantar pelo cantar. Desta vez não. Antigas canções agora revigoradas seriam apenas antigas canções revigoradas não fosse Milton dar-lhes alma, imprimir-lhes dramaturgia.
‘‘Tambores de Minas’’ foi gravado ao vivo, em março, no teatro João Caetano (RJ). Traz quase na íntegra o show, homônimo, dirigido pelo competente Gabriel Villela - foram excluídas do roteiro original músicas como ‘‘A Sede dos Peixes’’, ‘‘Para Lennon e McCartney’’, ‘‘Louva a Deus’’ e a manjada ‘‘Canção da América’’. O show foi calcado no disco anterior, o festejado ‘‘Nascimento’’, com o qual Milton ganhou o Grammy na categoria World Music. E olha que tal disco beira o convencionalismo, quase a chatice.
‘‘Tambores de Minas’’ é uma espécie de inventário musical dos 30 anos de carreira de Milton Nascimento. Nesse ponto, alguns tesouros não foram listados. Não faz mal. O resultado final está de bom tamanho, já que o repertório obedece a princípios pessoais de um artista que, depois de tantos solavancos particulares, se dá o direito de exigir respeito à sua arte cantando o que melhor o traduz, pelo menos momentaneamente.
Em outras palavras, ‘‘Tambores de Minas’’ é um anúncio de que Milton está novamente disposto a mostrar que sua recuperação artística está em adiantado processo. E um disco ao vivo, contendo grandes sucessos, não deixa de ser uma forma de anunciar ao mundo que Milton Nascimento sobreviveu à avalanche de crises pessoais e urubus da mídia que deixaram de questionar sua obra para especular sobre sua saúde.
A resposta veio em forma de um espetáculo magistral dirigido por Gabriel Villela. Que conseguiu desmanchar a carranca e o ar quase apático que normalmente Milton imprimia em shows. Villela conseguiu, no palco, revelar o lado feliz que Milton Nascimento não queria - ou não tinha condições - de trazer a público.
Ou seja, fez Milton sair daquela lenga-lenga cênica-vocal (banquinho, violão ou uma andadinha aqui ou ali no palco, gestos dramáticos não muito convincentes) para mostrar que sendo ele um deus da MPB era preciso fazer milagres audiovisuais. E Milton fez. O disco registra o clima de empatia estabelecido com o público.
‘‘Tambores de Minas’’ não é um disco feito para o cérebro; é direcionado ao coração. Ganha o ouvinte logo na primeira faixa. Também pudera, surge a voz de Elis cantando ‘‘O que Foi Feito Devera’’ (Milton Nascimento-Fernando Brant) para em seguida Milton entrar com tudo cantando a letra que Márcio Borges fez para a mesma música.
É nesta faixa que Milton manda seu recado ao mundo através das palavra de Márcio Borges: ‘‘Alertem todos os alarmas/ Que o Homem que eu Era Voltou’’. É Milton dizendo olá para a vida. Ao todo, 17 faixas. Nada de texto, nada de afago verbal no público, apenas um rápido e seco ‘‘obrigado, boa noite’’ na primeira faixa e dá-lhe música e mais música.
Um dos destaques fica por conta da gravação de ‘‘Corsário’’ (João Bosco e Aldir Blanc), cuja gravação só pode ser comparada à de Elis Regina. Lindo! E é justamente a partir dessa música, a quinta faixa, que Milton Nascimento põe toda sua carga emotiva à serviço do bem-estar público. Ah, sim, os conhecidos vocalises e principalmente os magníficos falsetes também voltam à tona. É por isso que ‘‘San Vicente’’ é uma faixa que deve ser ouvida com bastante atenção.
‘‘Tambores de Minas’’, mesmo não sendo o melhor disco de Milton, é especial por finalmente fazer desabrochar a alegria e comoção até então enrustida no canto desse totem da MPB. É, por outro lado, um exemplar modo de equilibrar consistência musical, emoção e apelo comercial, através de faixas ultraconhecidas. Sim, porque ‘‘Nos Bailes da Vida’’, reconheçamos, já torrou o que tinha que torrar.
‘‘Tambores de Minas’’ precisa correr o mundo para anunciar que Milton, o velho e bom Milton, voltou a andar de mãos dadas com o lado mais delicado da vida. Viva, Milton! Viva muito!!
‘‘Valei-me profetas! Minas Gerais!
Terá existido em outra parte além do meu arbitrário pensamento?
Será que tudo que está ligado à consciência, tocando de leve no real sem penetrá-lo está destinado ao fracasso e ao esquecimento?
Será que este meu retorno a Minas não é apenas uma reconciliação com o intolerável?
Eu quis colocar minha voz a serviço de Deus, isto é, a serviço do homem. Eu tinha um projeto.
Nascido do sangue, asfixiei-me no sangue. As terras fartas de Três Pontas conservam meu rastro. Que restará na memória de meus amados, nos quais coabitam minha alma de criança e o caos dramático que me meti, dessa mistura de esquinas e perturbações poéticas?
Fizeram de mim a voz de Minas, o cidadão do mundo. Depois... um atestado de óbito.
Que restará na memória do meu povo? A violência dos ternos, traição dos fiéis, imprevidência dos sábios e minha própria cegueira de adivinho? Não. Restará a vitória, o meu salto mortal para dentro de uma nova vida.
Deixo nas mãos das pessoas honestas e na ferocidade dos críticos minha própria cronologia e a geografia exata do meu coração - um lugar vivo de todos os contrários.
Este show é um inventário, baseado no meu imaginário pessoal, que transforma minha obra numa declarada reconciliação com a vida.
Este show expõe sem qualquer piedade a minha verdadeira alma, perturbadora e desigual.
Não tenho intenção cultural, estética ou didática. Ele foi concebido para meu benefício próprio, com a intenção de louvar a Deus, e neste ato, agradecer aos meus amigos e a vocês, que sei, não deixaram que eu, prematuramente, me transformasse num pasto para os vermes.’’
(Texto do encarte de ‘‘Tambores de Minas’’, escrito por Milton Nascimento)Repertório
O que Foi Feito Devera (Milton Nascimento-Fernando Brant, voz de Elis Regina)
O que foi feito De Vera (Milton Nascimento-Márcio Borges)
Cavaleiros do Céu (Stan Jones, versão de Haroldo Barbosa)
Calix Bento (adaptação Tavinho Moura)
Paula e Bebeto (Milton Nascimento-Caetano Veloso)
Corsário (João Bosco e Aldir Blanc)
Léo (Milton Nascimento e Chico Buarque)
Caçador de Mim (Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá)
Ponta de Areia (Milton Nascimento- Fernando Brant)
O Rouxinol (Milton Nascimento)
E Agora Rapaz (Dinho Caninana)
Guardanapos de Papel (Leo Masliah, versão de Carlos Sandroni)
Janela para o Mundo (Milton Nascimento-Fernando Brant)
Levantados do Chão (Milton Nascimento- Chico Buarque)
San Vicente (Milton Nascimento-Fernando Brant)
Nos Bailes da Vida (Milton Nascimento-Fernando Brant)
Os Tambores de Minas (Milton Nascimento-Márcio Borges)
Canções e Momentos (Milton Nascimento-Fernando Brant)

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