Trazer a cultura para perto da população deve ser a diretriz da política cultural de Curitiba. As opiniões sobre esse tema começaram a ser expostas ontem no seminário ‘‘Cultura: Criação e Trabalho’’, no Salão de Atos do Parque Barigui, com a presença de representantes da classe artística, especialistas em modelos alternativos e público em geral.
Com o slogan ‘‘Curitiba cidade social’’, proposto pela Prefeitura de Curitiba para esse seminário, os produtores artísticos entendem que a administração municipal percebeu o recado das urnas na última eleição e está procurando desenvolver uma cidade mais justa e solidária.
Para o palestrante convidado, professor Danilo Miranda, diretor do Sesc São Paulo, toda essa discussão é uma questão de política pública. ‘‘Trata-se de dar oportunidade para que aqueles que não têm acesso às produções culturais passem a ter. Isso se faz facilitando a infra-estrutura. O poder público tem de fomentar, criar platéia e criadores. Fundamentalmente, é uma linha de atuação que se tenha um objetivo e coloque-o de forma bastante clara. Isso é uma função pública, claro que com aliados’’, afirma Miranda.
Esses parceiros devem ser empresários da iniciativa privada, que cada vez mais sentem a necessidade de participar da vida cultural das cidades onde estão instaladas. ‘‘É uma visão estratégica porque perdem prestígio se não fizerem isso. Esse é um fator que tem de ser usado em favor da política cultural’’, reforça.
A dificuldade em se colocar em prática essa política seria, segundo Miranda, porque as pessoas não têm um convencimento exato disso, nem todos percebem a importância da área cultural. Não percebem o alcance não só da área cultural, mas também da educação, da saúde preventiva, saneamento básico. ‘‘O que existe é um desleixo com relação a perspectivas de longo prazo que não tragam dividendos políticos ou eleitoreiros imediatos’’, afirmou
Para o presidente da Fundação Cultural, Cássio Chamecki, o importante desse seminário é ouvir o que as pessoas têm a dizer. ‘‘Elas não tinham um espaço para expor suas opiniões. A elaboração de uma política cultural vai ter como base as discussões dessas reuniões’’, garante.
O primeiro passo será, segundo Chamecki, a definição dos elementos para uma mudança de conceitos de uma orientação social. ‘‘É importante que o degrau econômico que existe não seja também cultural. O que percebo é que os talentos daqui não conseguem se desenvolver. Por isso vamos priorizar a cultura local e também trazer o que acontece no mundo para que possa haver um comparativo’’, analisou
A cineasta Berenice Mendes chamou a atenção do público para os dizeres do banner ‘‘Curitiba capital social’’ que está sendo usado pela primeira vez.
‘‘Até o ano passado os dizeres seriam ‘capital ecológica’. Essa demanda foi sentida nas eleições. Nessas discussões, três pontos devem ser salientados: primeiro se queremos que Curitiba continue com a visão de exceção positiva – Curitiba como cidade boa para negócios ou se Curitiba onde as crianças produzem arte e não cheiram cola. Como podemos materializar essa exceção positiva. Segundo, é o significado da noção de ética na criação da imagem e na ação sócio-cultural em si. Isso significa pensar a cidade para as pessoas, para a formação do ser humano. O terceiro ponto é a coerência entre a fala institucional e a prática real. Esse é o primeiro seminário cultural em toda a história dessa cidade e a gente já pode perceber a sua importância’’, disse.
Para a produtora de artes cênicas Yara Sarmento, o melhor ainda estará para acontecer. ‘‘Amanhã (hoje) os grupos começam a debater e deverão elencar propostas nas diversas áreas da cultura’’, afirma. Segundo ela é preciso entender a função social da cultura e democratizar o acesso da população aos bens culturais. ‘‘Além do lazer cultural, por intermédio das histórias que são contadas, deve-se dar a possibilidade de o público refletir, ter auto-conhecimento, portas abertas e conhecer seus direitos e deveres de cidadania. Essa é a função da cultura’’, preconiza.

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