'Em Paris', ou a ótima jornada da cinefilia
Nada mais diametralmente oposto do que os dois principais lançamentos de hoje na cidade. De um lado, o cinemão made in USA alicerçado na vacuidade, na transitoriedade, na leviandade - ''A Múmia''. De outro, a surpresa diante do imprevisível, o caminho radical (leia-se novo), o desprezo à obviedade, a entrega ao vulnerável, o culto a um tipo de cinema que celebra, e bem, muitas coisas a um só tempo: a juventude, a família, o amor, o próprio cinema através do cruzamento de gêneros como a comédia, o melodrama, o musical - o francês ''Em Paris'' (confira a programação de cinema na página 2).
Escrito e dirigido por Christophe Honoré, ''Em Paris'' é rigorosamente um filme destemido. Nada impede Honoré de contar sua história da maneira mais livre que se possa imaginar. Livre para construir um estilo que não liga a mínima para as armadilhas ficcionais (armadilhas que transforma em fontes de prazer para o espectador). Livre para falar de seus personagens sem nenhum medo de invadir seus limites psicológicos. Livre para ser contemporâneo ao mesmo tempo em que revisita e presta tributo - sem ser devedor - a um movimento tão caro e tão essencial ao cinema como foi a nouvelle vague.
Há dois irmãos, Paul (Romain Duris) e Jonathan (Louis Garrel), e mais o pai (Guy Marchand). O primeiro atravessa a turbulência de uma desilusão amorosa e se entoca no apartamento da família; o segundo, sob o mesmo teto, é aventureiro sexual ainda imaturo. Ao mesmo tempo complexo e transparente, Honoré observa de perto e logo se afasta dos personagens, sem no entanto deixar de estabelecer que o tempo e o espaço de sua história, e de quem nela habita, são o aqui e o agora, mesmo que impregnados daquela influência maior - a Nouvelle Vague - que ainda assombra beneficamente as novas gerações de realizadores. (C.E.L.J.)





