EM NOME DO PAI
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quarta-feira, 07 de junho de 2000
Francelino França De Londrina 
Nelson Rodrigues Filho veio a Londrina assistir ao monólogo Valsa nº 6, escrito pelo dramaturgo incansavelmente encenado no País
Nelson Rodrigues volta a ser obsessão no Rio de Janeiro. Um surto de estudos e montagens do maior dramaturgo brasileiro revolve a criação rodriguiana, indiscutivelmente uma das mais renovadoras do século XX. Em todos os cursos de teatro, Nelson Rodrigues é unanimidade. O teatro completo de NR formado por 17 peças somados às inumeráveis crônicas, romances e contos são vasculhados em releituras das mais variadas tendências. No palco do Sambódromo, no fervo do Carnaval 2001, a Escola Unidos da Tijuca apresentará o samba-enredo sobre a vida do anjo pornográfico.
Na Universidade Swan, no Rio, Nelson Rodrigues se transformou numa disciplina, com um ano e meio de duração. A proposta é conhecer NR até o tutano. Mais ainda falta muito a saber da obra do jornalista e dramaturgo. Cerca de 80% de sua produção jornalística ainda não foi relançada. Há um universo rodriguiano a ser descoberto, segundo Nelson Rodrigues Filho, 54 anos, jornalista, cineasta e agora diretor de teatro. Em Londrina, Nelsinho, como é conhecido, veio assistir ao monólogo Valsa nº 6, protagonizado por Carla Diacov, no espaço Casa da Sônia, na última sexta-feira.
Juntamente com mãe, Elza Bretanha Rodrigues, eles revelam em primeira mão a existência de um romance inédito, A Mentira (ainda sem editora definida), descoberto graças a ajuda do pesquisador Caco Coelho. Mãe e filho viajam pelo Brasil para conhecer as montagens dos espetáculos de NR e conhece de perto as dificuldades dos produtores culturais. Na infantaria das artes, o teatro é o primeiro a levar pancada, analisa.
Nelsinho está imerso no legado do pai. Participou como assistente de direção em 5 filmes baseados nas peças do velho, como se refere ao pai. Com Braz Chediak co-dirigiu Bonitinha, Mas Ordinária, Álbum de Família e Perdoa-me Por Me Traíres. Para a RTP1, Rede de Televisão Portuguesa, roteirizou 15 contos de A Vida Como Ela É... e participou da roteirização de 40 episódios da Vida..., para a Rede Globo.
Da inesgotável obra de Nelson Rodrigues, o filho garimpou sete contos de A Vida Como Ela É..., todos relacionados com o beijo, e está adaptando para os palcos com o nome Momentos, Beijos de Nelson Rodrigues. A previsão de estréia é 23 de agosto, no Rio de Janeiro. Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca, eternizou o polêmico dramaturgo. Durante 11 anos, NR produziu incansavelmente os contos da Vida..., uma coqueluche nos anos 50. Em casa, à noite, ouvia sempre as mesmas músicas. Por isso, o espetáculo Momentos - Beijos de Nelson Rodrigues será uma adaptação desses contos interligados com músicas, bem ao estilo rodriguiano. No conto Um Cadilac Por um Beijo, D. Olívia, uma solteirona estrábica nunca foi beijada. E oferece um Cadilac a Percival em troca de um beijo.
O velho era incansável. Mesmo doente terminal tinha o vício de escrever. 60% da vendagem de O Globo era por causa de suas crônicas, reporta Nelsinho. Ninguém é reacionário com a obra que ele tem, prossegue. Um dramaturgo reacionário não seria motivo para um surto teatral, nem seria o autor brasileiro mais filmado, com mais de 20 filmes inspirados em sua obra.
Nelsinho volta a sua infância, na década de 50, quando pela primeira vez percebeu o velho como pessoa genial. O fato aconteceu com uma professora de violino de Nelsinho, também aluna de um maestro, de 54 anos, casado e pai de dois filhos. Maestro e aluna, de 18 anos, foram vistos juntos na cidade. A notícia se espalhou com tamanho fervor que todos começaram a se intrometer no caso, até virar notícia de primeira página. Quando bateram na porta dos Rodrigues para que participassem de um abaixo-assinado em desagravo aos amantes, Nelson reagiu: Vocês estão matando essa menina. Dias depois, o casal se matou, após selarem um pacto de morte. Um caso de amor para além da vida e da morte, que impregnou a memória de Nelsinho.
Sobre as recentes filmagens empreendidas pela Conspiração Filmes baseadas em contos de NR Traição e Gêmeas Nelsinho torce o nariz para a primeira película. O episódio Hotel era coisa de Tarantino. Eles chuparam da obra do velho, até de Vestido de Noiva, e colocaram nos contos. Traição foi uma colagem com as coisas do velho, afirma. Também não aprova a forma pelo qual o escritor Ruy Castro seleciona os textos para a reedição da obra de NR para editora a Cia. das Letras. sobre as crônicas de futebol, Nelsinho revela que Ruy separou apenas umas 100, publicadas na Revista Manchete, e selecionou 50.
Um fato inesperado e tipicamente rodriguiano aconteceu com Nelson Rodrigues Filho, no último sábado, quando se preparava para retornar ao Rio de Janeiro. O jornalista teve uma crise respiratória e foi encaminhado ao Hospital Materdei, em Londrina. O diagnóstico realizado pelo médico Eduardo Sahão apontou um pneumotórax no pulmão direito. O pneumatórax ocorre quando existe ar na cavidade pleural (local onde normalmente só deve haver um filme de líquido pleural e não ar), dificultando a respiração e comprimindo o coração. Nelson Rodrigues Filho ficou internado por quatro dias e, finalmente, pôde retornar ao Rio ontem.
O espetáculo Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, protagonizado pela atriz Carla Diacov, fica em cartaz até 9 de julho, de sexta à domingo às 22 horas, na Rua Teresina, 78, em Londrina. No dia 12 de junho, segunda-feira, em comemoração ao Dia dos Namorados, tem apresentação extra, às 21 horas. O valor do ingresso será de R$ 5,00 o casal. Na ocasião, será sorteado uma cesta romântica. Antes da apresentação será servido um coquetel especial com receita exclusiva de Nelson Rodrigues Filho. O espetáculo tem patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e apoio da Splash Academia, Zona do Aroma, Albatroz Turismo, Cedro Hotel e Estação Norte.


