Em nome da sobrevivência
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de junho de 2012
Ana Paula Nascimento <br> Reportagem Local 
Inspirado em texto de Franz Kafka, o espetáculo ''Comunicação a uma academia'', que a Companhia Club Noir, de São Paulo, apresenta amanhã e terça-feira, às 21 horas, no Teatro Filo (R. Cuiabá, 39), faz uma metáfora sobre o processo de aculturação humana.
Com direção de Roberto Alvim, o monólogo apresenta, em cena, um macaco (interpetado pela atriz Juliana Galdino) que se apresenta a uma academia tentando relatar o processo que o tornou humano. Reflete e compara sua condição animalesca anterior com a atual humanidade, num misto de arrogância, sarcasmo e agressividade. Enquanto é vigiado por um guarda armado (no papel de José Geraldo Junior), conta como foi difícil aprender a se comportar e a pensar como um de nós e percebe que tampouco está livre fora da sua jaula. Os ingressos estão esgotados.
Escrito posteriormente ao famoso livro ''Metamorfose'', também de Kafka, em que o processo é inverso - um ser humano acaba se transformando em um inseto -, o texto que dá base à montagem traz à tona questões relacionadas às adaptações a que somos submetidos em busca da sobrevivência, em seus mais diversos sentidos.
''A peça acaba por provocar uma comoção mais genuína no público, ainda mais pelo fato do relato ser feito por um 'animal' que chega ao ponto de dominar a fala, a linguagem, para se comunicar com os seres humanos'', pondera a atriz Juliana Galdino, que atuou no curta-metragem londrinense ''Angélica'', de autoria do saudoso jornalista Francelino França.
Embora apresente aspectos referentes à liberdade, Juliana ressalta que o espetáculo não é panfletário nem moralista. ''Como o próprio personagem diz, 'não me arrependo nem me orgulho do que fiz'; ele não faz juízo de valores e acaba por mostrar que adaptação é diferente de aceitação'', exemplifica.
A caracterização da personagem principal chama a atenção pela semelhança com um símio, mas ela conta que os recursos são simples - apenas corretivo e blush escuro - que são valorizados com um jogo de luz de claro/escuro. ''A caracterização é apenas para incrementar o imaginário da plateia. O mais importante no nosso trabalho é focar no poder da linguagem, no encadeamento das ideias, sendo que também procuramos criar um trabalho com o inconsciente do autor'', destaca. ''Queremos dar voz ao texto ao invés de interpretá-lo'', acrescenta a atriz, adiantando a possibilidade de fazerem um bate-papo com o público ao final do espetáculo.
O grupo foi criado pelo diretor e dramaturgo Roberto Alvim e pela atriz Juliana Galdino em 2006 com o objetivo de encenar prioritariamente autores contemporâneos (brasileiros e internacionais). Em virtude da poética dos novos autores, houve a necessidade de criação e conceituação de abordagens e técnicas originais no que concerne à atuação/encenação destas obras. Surgiu assim a pesquisa da companhia, que ao longo de seus anos de existência, assimilou uma série de novos componentes em sua formação, que atualmente congrega 20 artistas.
Serviço:
- Comunicação A Uma Academia, da Cia Club Noir (São Paulo/SP)
Quando - Segunda e terça-feira, às 21h
Onde - Teatro Filo (R. Cuiabá, 39)
Duração - 50 minutos
Classificação etária - 16 anos


