Estupro, necrofilia, homossexualismo, mulheres enlouquecidas e sadismo sempre ganharam um tempero cômico nas mãos do diretor espanhol Pedro Almodovar. O cineasta ganhou notoriedade internacional ao concorrer ao Oscar com ‘‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’’, de 88, em que o humor negro, o erotismo e as reviravoltas inusitadas demonstravam um estilo único: o almodovariano. Mais de uma década se passou e Almodovar foi ficando menos ousado na arte de chocar a platéia, como em ‘‘A Flor do Meu Segredo’’, de 95. Mesmo assim, o comportado Almodovar de 49 anos ainda é bastante original. Com quase um ano de atraso desde a estréia européia, chega aos cinemas nacionais ‘‘Carne Trêmula’’, o 12º longa do diretor.
Apesar do título, ‘‘Carne Trêmula’’ não tem tantas cenas de sexo como em outros filmes do diretor. Mas a tensão sexual entre os personagens ainda é o foco principal de Almodovar. O filme é baseado no livro ‘‘Live Flesh’’, da inglesa Ruth Rendell, mas foi roteirizado livremente por Almodovar. A história foi transferida da chuvosa Londres para Madri e o personagem principal é preso por dar uma tiro num policial e não por estupro, como no texto original. Liberto Rabal, que faz o protagonista Victor, já lembra em demasia Antonio Banderas em ‘‘Ata-me!’’, de 1990, para ainda ganhar um papel semelhante.
A trama de ‘‘Carne Trêmula’’ começa em 1970, durante o estado de sítio imposto pelo general Franco, quando ninguém saía às ruas com medo de ser preso. Época vivida pelo próprio Almodovar, que havia deixado a pequena Calzada de Calatrava para conquistar Madri, mas trabalhava num mercado de pulgas e não podia frequentar uma escola de cinema por estarem todas fechadas pelo regime franquista. Bem que tentou seguir os caminhos da literatura, mas quando conseguiu juntar uns trocados trabalhando para a companhia telefônica adquiriu uma câmara Super 8 mm. Os curtas dessa época entre 72 e 78 eram quase telenovelas, mas já delineavam o Almodovar apreciador de personagens escandalosos e cheios de humor.
Os primeiros 10 minutos de ‘‘Carne Trêmula’’ resgatam esses ingredientes. A cafetina feita por Pilar Bardem ajuda a prostituta interpretada por Penelope Cruz a parir dentro de um ônibus, enquanto tentam chegar ao hospital. A cafetina é passional e inusitada como as melhores mulheres almodovarianas - além de se jogar na frente do ônibus para pará-lo, ela também corta o cordão umbilical do recém-nascido com os dentes.
Nessa noite no ônibus nasce Victor, feito por Liberto Rabal. A história avança 20 anos, quando o rapaz está apaixonado por Elena, viciada em drogas, feita por Francesca Neri de As Idades de Lulu, de Bigas Luna. Os dois têm uma violenta discussão e Victor é preso por atingir o policial David, feito por Javier Bardem, também de ‘‘As Idades de Lulu’’ e ‘‘De Salto Alto’’. Com o tiro, o policial fica paraplégico. Seis anos depois, Victor sai da prisão, Elena não é mais viciada e está casada com David, que virou campeão de basquete nas paraolimpíadas de Barcelona. A partir daí, Victor tenta reconquistar Elena. Mas se envolve com Clara, vivida por Angela Molina, a esposa de um policial violento que vira a professora sexual de Victor.
O destino dos personagens de ‘‘Carne Trêmula’’ vai se cruzando e se chocando contra a teia esquizofrênica das relações traçadas por Almodovar. Relações essas que não são mais tão chocantes como as de ‘‘Matador’’, de 86, ou até do cult homossexual ‘‘A Lei do Desejo’’, de 87, mas que são ainda extremamente passionais, inusitadas e por isso mesmo bastante interessantes. Fã de boleros, Almodovar sempre transferiu para seus filmes essa carga dramática e até kitsch. Assim como a fixação por mães e mulheres fortes. Atualmente o diretor está rodando ‘‘Todo Sobre Mi Madre’’, em Barcelona. Talvez venha por aí algo mais confessional e parecido com o Almodovar anterior ao sucesso comercial internacional.DivulgaçãoCena de ‘‘Carne Trêmula’’, livre adaptação do livro ‘‘Live Flesh’’, da inglesa Ruth RendellAna Lúcia do Vale
Cult Press

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