Em nome da mentira
EM NOME
DA MENTIRA
Concurso em Campo Mourão dá prêmio em dinheiro aos maiores mentirosos e a cada ano atrai um número maior de participantes
Sid Sauer
ReproduçãoFoi-se o tempo que mentir era coisa feia. Pelo menos em Campo Mourão, onde há cinco anos a Fundação Cultural (Fundacam) chega a dar prêmios em dinheiro aos melhores mentirosos da cidade. Mentira? Verdade. Este ano, por exemplo, o 5º Concurso Pinóquio de Causos e Mentiras vai distribuir R$ 2,7 mil entre os três primeiros colocados de cada categoria. Os donos da maior mentira e do melhor causo levam, cada um, R$ 600. Mentira? Verdade.
A idéia de se fazer o concurso surgiu há seis anos, durante as festas juninas organizadas pela Fundacam. A festa acabava cedo, mas a roda de causos entrava madrugada adentro. Ninguém queria ir embora sem contar o último causo, conta a organizadora do Concurso Pinóquio, Edilaine Castro. Havia uma competição natural entre os contadores de causo, explica. Um queria ser melhor que o outro. Mentira? Verdade.
O sucesso da roda de causos despertou a Fundacam para a realização de um evento próprio. Mas que dia realizar o evento? A dúvida da Fundação Cultural durou pouco. O 1º de abril caiu como um luva e os causos que dominavam as rodas ganharam a companhia das mentiras. Foi um casamento perfeito. O nome do concurso também foi fácil de escolher. Bastou homenagear o mais famoso mentiroso do mundo. Aliás, também foi inspirado em Pinóquio que o troféu dado aos primeiros lugares tem a forma de um grande nariz. Mentira? Verdade.
E assim foi indo. O concurso começou nas acanhadas instalações da Casa da Cultura, foi para o Teatro Municipal e chegou à praça pública. Este ano, ele volta para o Teatro. Questão de organização, explica Edilaine. Na praça, uma simples chuva pode estragar tudo. Já mentiroso é o que não falta. Desde a terceira edição, a Fundacam tem que fazer uma pré-seleção para que dê tempo de todo mundo se apresentar no dia 1º de abril. Mentira? Verdade.
Só este ano, foram inscritas 40 mentiras e 25 causos. Só 14, no entanto, estão classificadas para a finalíssima. Quem passa na pré-seleção, ganha uma mãozinha da Fundacam. Damos dicas de como ele pode melhorar a apresentação da mentira ou do causo, conta Edilaine. O Concurso Pinóquio se transformou no evento mais popular da fundação. Ele foge totalmente da elite, explica. E tem gente que se inscreve todo ano. Mentira? Verdade.
Um dos mentirosos mais assíduos é o empresário Walter Tonelli, o Peteleco. Ele foi campeão das primeiras edições do concurso e se transformou numa espécie de profissional da mentira. Com tanto sucesso, Peteleco acabou convidado para ser o apresentador do evento no ano passado. Foi um jeitinho que a gente arrumou para que ele não participasse, brinca Edilaine. Eu podia não ganhar, diz Peteleco com modéstia. Mentira? Verdade.
Sem Peleteco, que também já tinha faturado um segundo e um terceiro lugar no concurso de causos, quem seu deu bem foi a doméstica Cleonice dos Santos. Ela foi a primeira mulher premiada no evento e este ano vai tentar o bicampeonato. Peteleco, porém, está de volta, uma vez que a apresentação este ano será feita por Chapecó, um humorista paulista que imita o mestre Mazaroppi. Mas Peteleco jura que não gosta muito das suas mentiras. Mentira? Verdade.
Das três que lhe deram títulos, ele lembra de uma na qual imitava Jacinto. É a triste história da mulher que tinha muita espinha e recebeu a recomendação médica de tomar banho de leite. Resultado: acabou morrendo esmagada quando a vaca escorregou no sabonete e caiu sobre a pobre mulher. Para Peteleco, um dos segredos é sempre contar mentiras com cunho humorístico. Isso ele sabe de sobra, uma vez que já foi palhaço de circo. Mentira? Verdade.
Nasci debaixo de uma lona, conta. Pelo circo, aliás, ele ficou até os 18 anos. No ano passado, apesar de ter ficado fora do concurso, Peteleco não deixou de levar um troféu em forma de narigão para casa. É que o filho dele, Vinícius, na época com 8 anos, ficou em primeiro lugar na categoria infantil. Peteleco chegou a inscrever o menino com outro nome para que ninguém descobrisse que era seu filho. Mentira? É, não deixa de ter sido uma mentirinha.
Para este ano, a família vai ainda mais completa. Além de Peteleco e Vinícius, o ex-palhaço - e hoje mentiroso respeitado na cidade - tratou de inscrever também a filha Viviane, de seis anos. Nem é preciso ganhar, vale a participação, diz o orgulhoso pai. Sinal que mentira corre nas veias? Peteleco diz que não. Levamos sorte, despista. Se o rei da mentira vem do circo, o rei do causo vem do rádio. Mentira? Verdade.
O radialista Gérson Maciel é o responsável pela equipe de esportes da Rádio Colméia de Campo Mourão, mas no dia 1º de abril ele se transforma em contador de causos. Posso até mentir um pouquinho, mas me dou bem é nos causos, conta. Maciel foi premiado em 95 e 97 e vai tentar o tricampeonato. Em 96 ele não participou do evento. Na categoria mentira, ele já conquistou um segundo lugar e este ano está inscrito nas duas categorias. Mentira? Verdade.
Assim como Peteleco, Maciel acredita que tem obtido sucesso porque enche os causos de piadas no meio, além da experiência que teve na escola com o teatro amador. No ano passado ele faturou o prêmio com a história de um homem que ganhou na sena e foi comemorar em Nova York. O causo é bobo, mas estava cheio de piadas e o público gostou, conta. Maciel adora um causo e lamenta que tenha oportunidade de se expressar apenas uma vez por ano. Queria mais, diz. Mentira? Verdade.
A vontade do radialista em contar mais causos é tanta, que ele já pensa em criar uma espécie de associação de contadores e mentirosos. A gente precisava se reunir mais, nem que fosse em pequenas rodas, prega. Essa história de transformar a mentira e o causo numa grande piada, parece mesmo que dá certo. Que o diga Carlos Rodrigues, um participante do segundo Concurso Pinóquio. Ele passou uma mentira tão grande e tão séria, que o público começou a sair da Casa da Cultura. Mentira? Verdade.
Rodrigues usou uma tática diferente. Ele sequer esperou ser anunciado. Subiu no palco e disse, com muita seriedade, que o concurso estava sendo cancelado porque acabava de chegar de Brasília a notícia de que o presidente da República havia morrido. Em respeito à morte do presidente vamos adiar o evento, disse. Rodrigues conseguiu enganar até o apresentador Nhô Moraes, que se retirou cabisbaixo para os camarins. Mentira? Verdade.
Tivemos que correr até a porta para evitar que o público fosse embora, relembra Edilaine. Isso sem contar que tiveram que avisar Nhô Moraes que tudo não passava de mais uma apresentação. Apesar do estrago, Rodrigues não ganhou. Quem vem ganhando sempre é o Concurso Pinóquio, que nasceu discreto e hoje já é conhecido em todo o Estado, chegando atrair mentirosos de longe. Virou atração turística, frisa Edilaine. Mentira? Verdade.
Para as próximas edições, a Fundacam já pensa em dividir os inscritos em duas categorias: a dos já premiados e a dos mentirosos de primeira viagem. É para evitar que o prêmio acabe sempre ficando nas mãos dos profissionais. Candidato a cargo eletivo, por exemplo, não pode participar de jeito nenhum. Seria concorrência desleal. Verdade? Mentirinha!...





