Estelio Feldman
De Londrina
O poeta Yevgeny Yevtushenko, em ‘‘Não Morra Antes de Morrer’’, retrata a resistência popular russa ao golpe que tentou barrar a abertura durante o governo de Gorbachev
Em agosto de 1991, o mundo que começava a respirar aliviado com o fim da ‘‘guerra fria’’, a política de abertura lançada com coragem por Mikhail Gorbachev, na União Soviética, sentiu-se de novo à beira do abismo. Militares revoltados com o que antecipava o fim de seu poderio de 70 anos na União Soviética, deram um verdadeiro golpe, afastando Gorbachev e anunciando a restauração do regime antigo. Uma reação aconteceu, partida do então presidente da Rússia, Bóris Yeltsin, que liderou uma inesperada (e até certo ponto inacreditável) resistência aos golpistas, transformando a Casa Branca - sede do governo russo - em um foco de rebeldia contra o ameaçador retorno ao terror que havia dominado o mundo desde o fim da 2ª Guerra Mundial.
Foram dias de intensa preocupação no mundo inteiro, até que, afinal, a resistência liderada por Bóris Yeltsin acabou sendo vitoriosa. Gorbachev voltou ao cargo, continuou o trabalho e acabou até melancolicamente, no fim daquele ano, quando se oficializou o desbaratamento da União Soviética. Uma nova era começava para o mundo, livre dos temores que haviam acompanhado o planeta por quase 50 anos.
As agências noticiosas contaram, aparentemente, tudo o que havia acontecido naqueles dias. Soube-se que uma parte da população russa, em especial os moscovitas, participou, de modo direto, da reação. Todavia, assim como pouco se sabia de fato da vida dos russos ao longo do período comunista, também foi pequeno o conhecimento que se teve da real situação vivida pelo povo, de sua efetiva coragem ao criar, à volta da Casa Branca de Moscou, uma verdadeira barricada humana, em defesa da liberdade.
Agora, através do trabalho do poeta russo Yevgeny Yevtushenko, é possível saber da fantástica reação de um povo, no livro curiosamente intitulado ‘‘Não morra antes de morrer’’, publicado em 1995 e lançado este ano pela Editora Record. O título parece estranho, mas traz uma simbologia impressionante. Muitos russos, conforme diz o autor, sentiram como se estivessem sendo mortos pelos golpistas que ameaçavam restaurar a ditadura, derrubando a abertura de Gorbachev. E a resposta é esta: ninguém está morto antes de morrer. Gente simples foi às ruas, cercou a Casa Branca, negou-se a morrer, não aceitou a volta do antigo sistema.
Yevtushenko, poeta de enorme valor, traz com seu romance os dias de reação de um povo, contando adicionalmente um pouco do que foram os anos do comunismo, as dificuldades do povo, o medo, a opressão de um regime assustador. Ficção e realidade se mesclam, formando um painel impressionante, oferecendo ao leitor condições de perceber a profundidade da luta humana, o anseio maior que todos os seres humanos têm na defesa de sua dignidade.
Em um trabalho envolvente, Yevtushenko consegue levar o leitor a vivenciar a ação de um povo, apresentando um elenco de personagens que vivem e vibram, profundamente reais, gente como a gente, com sonhos e ilusões, e uma força que raramente é sentida ou usada. Paralelamente, conta parte da história soviética e não se furta em mostrar os lados menos bonitos do que aconteceu antes, durante e depois do frustrado golpe contra a democracia. Com passagens magníficas, o livro tem uma força impressionante e constitui, sem dúvida, uma leitura fundamental para quem quer entender um pouco mais a Rússia. Mas vai além, porque revela que a alma dos povos é semelhante, que os seres humanos em essência querem, apenas, viver em paz.
•‘‘Não Morra Antes de Morrer’’, de Yevgeny Yevtushenko. Tradução de Gabriel Zide Neto a partir de tradução norte-americana. Editora Record, 492 páginas.

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