Em nome da dignidade
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Cerca de oito crianças ensaiam uma coreografia, flexionando os joelhos e os cotovelos. No fundo, a percussão manda a batida de um rap. É quando o garoto entra, franzino, dentro de um macacão, empunhando uma baqueta de bumbo que, no calor da apresentação, se transforma em microfone. Os gestos copiam rappers famosos.
- Fico zoando pela cidade inteira/ Como mosquito da dengue que fica por todos os lados...
O coro entra em cena, entrecortando os versos.
- É o rap do mosquito.
Em seguida, é a vez de uma garotinha que segura encabulada o microfone e entoa uma balada romântica.
- Precisei desabafar com alguém que me entende/ Olhando para você eu me sinto feliz...
Por trás da aparente brincadeira há um trabalho que começa a mostrar resultado. As duas músicas, interpretadas na manhã de quarta-feira na Casa do Caminho, em Londrina, são de autoria dos protagonistas: Gustavo Roberto Durães, de 13 anos, compôs o Rap do Mosquito, e Pamela Durães, sua irmã, de 11 anos, fez a balada subsequente. Ambos estudam música no projeto Batuque da Caixa, financiado pela Caixa Econômica Federal e pela Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria de Cultura de Londrina.
Enquanto apresentam o que aprenderam e criaram, as crianças exigem atenção da assistência, cobram aplausos e gostam de ver seu trabalho reconhecido. Nos intervalos entre as músicas, há tempo para brincadeiras rápidas. Mas o ensaio é sério. Como é séria a vontade de aprender e conquistar os palcos. A descontração caminha lado a lado com o conteúdo pedagógico.
O barracão improvisado nos fundos da Casa do Caminho é um amontoado de sons. Em uma das salas, os alunos de cordas aprendem noções de bateria. Em outro ambiente, alunos de percussão treinam a voz e mostram suas músicas. No entra e sai de crianças, os professores coordenam os trabalhos.
Voltado inicialmente para pessoas carentes, o projeto hoje atende a alunos de várias bairros da cidade. Em funcionamento desde março, o Batuque da Caixa ganhou uma sede na Casa do Caminho - uma instituição voltada para o atendimento de menores carentes -, onde desenvolve seus trabalhos. Pamela e Gustavo, por exemplo, ficam no local das 8 da manhã às 17h30. Cerca de 40% dos alunos do projeto são da Casa.
As aulas são gratuitas e abrangem instrumentos de cordas - violão, cavaquinho, baixo e guitarra -, percussão - instrumentos que compõem uma escola de samba e bateria - e coral. Mas o encontro entre os alunos propiciam o surgimento de grupos diversos, de rap a MPB e coros.
Qualquer criança que quiser participar pode vir, é o interesse que vai manter a criança no projeto, explica o coordenador e músico Aldo Moraes. A idade mínima é de seis anos. Para fazer a inscrição, basta o pai levar o aluno, preencher a ficha e escolher o horário. As aulas estão abertas à visitação. Não há qualquer taxa. A procura é grande. No momento, apenas aulas de percussão têm horários disponíveis. O Batuque na Caixa já atende a 190 alunos.
Estou adorando, eu nunca pensei que iria cantar assim e ter liberdade para ser uma cantora, comemora Pamela. O entusiasmo se estende ao irmão: Eu adoro porque é a coisa mais gostosa do mundo, meu sonho era isso. Fiz a música com o meu talento, acrescenta Gustavo.
A verba obtida pelo projeto foi destinada à compra de instrumentos e ao pagamento dos professores. A idéia foi inspirada no Projeto Axé, de Salvador, e da Mangueira, no Rio de Janeiro. A intenção não é só ensinar a interpretar. A perspectiva central é a criatividade. As crianças estão fazendo letras, músicas, criando batidas peculiares. A gente só dá o referencial, afirma Luiz Carlos Matias, professor de cordas. Eu estou estudando violão desde março. Agora vou começar a fazer bateria. Estou gostando, diz Camila Marques Guimarães Arcaro, de 10 anos.
Outro estudante que está se aventurando pelas composições é Emerson Murari, de 18 anos: Eu fiz a música Para Tudo o que Vier aqui, estou gostando muito, é ótimo, ressalta.
Além das aulas regulares, o projeto ainda realiza workshops com temáticas sociais e culturais. O próximo será realizado no dia 20, às 18 horas, por Aldo Moraes, que vai falar sobre Processos de Composição de Villa-Lobos. No dia 27, o professor Luiz Carlos comenta o tema Rock na História. As palestras são abertas ao público e ocorrem na Casa do Caminho, na Avenida Paul Harris, 1.481, no Bairro Aeroporto.
A produção das crianças do projeto envolve também letras e poemas. Hoje, às 10 horas da manhã, na Casa do Caminho, será lançado o Folheto Poético nº 1, produzido por alunos e professores. O lançamento vai contar com apresentações diversas. Para setembro, o coordenação está preparando shows no Teatro Zaqueu de Melo, no Calçadão, na Avenida Saul Elkind, em Tamarana, e no Colégio Poli Valente, em Londrina. Também há a possibilidade de estender o projeto à Casa do Abrigo, da Prefeitura de Londrina, e à Guarda Mirim, atendendo mais cerca de 70 alunos.
Quando uma criança está criando, esta criatividade pode ser refletida na vida diária, ela pode ser criativa na escola, em casa. Temos contado também com a estrutura da Casa do Caminho, que nos dá apoio irrestrito, e tem a funcionalidade de trabalharmos com os internos, assegura Aldo Moraes. A expectativa agora é ampliar os ensaios do projeto para, no ano que vem, lançar o primeiro CD.Projeto de ensino musical gratuito atende a 190 alunos em Londrina e pretende lançar o primeiro disco no ano que vem
Dorico da SilvaGustavo comanda o Rap do Mosquito, assessorado pelas backing vocals e a percussão de Alisson VieiraDorico da SilvaGustavo e Pamela: aprendizado de percussão, coro e desenvolvimento de composições própriasDorico da SilvaEmerson Murari, ao violão, compôs Para Tudo o que Vier





