Marcelo AlmeidaAna Lúcia: ‘‘Meus netinhos gostam do meu disco, de ouvir
‘‘Acalanto’’. Mas o povo não tem condições de ouvir isso’’
Ana Lúcia, a primeira cantora a gravar ‘‘Samba em Prelúdio’’, de Baden Powell, relança o CD ‘‘Canta Triste’’
Zeca Corrêa Leite

Em meio à enxurrada de duplas cantando música brega e grupos com a cabeça raspada que dizem cantar samba, algumas pérolas emergem, saindo da mesmice. A RGE colocou recentemente no mercado o CD ‘‘Canta Triste’’, de Ana Lúcia, uma remasterização do LP lançado em 1964. Foi este o terceiro da curta carreira da artista, iniciada em 1959 e encerrada seis anos depois, assim que se casou.
Além da bela interpretação de Ana Lúcia - que em 1962 havia lançado ‘‘Samba em Prelúdio’’, de Baden Powell e Vinícius de Moraes - ele reúne dados históricos como a estréia de Oscar Castro Neves nos arranjos de um disco inteiramente seu, e a presença até então inédita, em estúdio, do Zimbo Trio.
Preocupada com o casamento marcado para outubro de 1965, a cantora mal divulgou ‘‘Canta Triste’’, que saiu da fábrica em outubro de 1964. ‘‘Naquela época o casamento era o que valia. Agora o disco está aqui, e o casamento se foi’’, diz, rindo. ‘‘Apesar de pouco trabalhado, todo mundo adora, porque é muito bonito mesmo’’, concorda. É um balaio de grandes: tem músicas de Tom, Vinícius, Baden, Caymmi, Tuca, Newton Mendonça, Pixinguinha, Braguinha e nos instrumentos profissionais como Hector Costita, além do Zimbo.
‘‘Você não acredita que ele tenha 35 anos. O som é muito atual, e isso se explica, porque naquele tempo tudo era bem cuidado, com orquestra, arranjos de primeira. Havia zelo, capricho. Pensava-se no que estava sendo feito.’’ A cantora conversou com a Folha2 durante sua passagem por Curitiba, que, aliás, foi uma oportunidade para colocar seus discos à venda na ‘‘Só Música’’, de seu amigo Clóvis Cordeiro da Silva. A loja fica na Galeria Cezar Franco, Rua Emiliano Perneta, 30, loja 19, telefone (041) 222-4379.
Veio trazer o apoio de mãe para a filha que lhe deu mais um neto. Morando atualmente em São Francisco do Sul (SC), cidade onde nasceu, pensa em transferir-se para cá, em trabalhar o CD, sem que isso represente reatar a carreira. Sem amargor, confessa: ‘‘Eu me arrependi de ter parado.’’
Como foi que a gravadora escolheu este disco para lançá-lo em CD?
Ana Lúcia - O disco foi lançado por uma empresa há dois anos no Japão e não me avisaram nada. A Wanda Sá chegou do Japão e disse que estava em destaque nas melhores lojas de Tóquio, e que era capa de catálogo. Meses depois a Joyce me trouxe um. Aliás, ele estava esgotado. Era um disco escrito em brasileiro e em japonês. Coisa cara, não foi um lançamentinho. Aí começaram a me pagar, mas o que pagaram não tinha nada a ver. Refizeram então o contrato e lançaram o CD no Brasil.
Em que circunstâncias isso aconteceu?
Ana Lúcia - Eles não dão muita atenção. Acho que lançaram aqui no Brasil só para tapar a minha boca. Um amigo meu, de Joinville, pediu para o vendedor da RGE e ele nem sabia que tinha o disco. Eu mesma trouxe alguns para vender em Curitiba.
Você tem vontade de voltar a cantar?
Ana Lúcia - Não. Mas como tenho um barzinho, o ‘‘Ilha da Paz’’, que abre na temporada em Ubatuba, quando dá canto um pouco. É coisa informal. Para trabalhar o disco deveria ir ao ‘‘Ensaio’’, do Fernando Faro, na TV Cultura, de São Paulo. Ia também fazer apresentações no ‘‘Tom Brasil’’, com o Zimbo Trio, e aí fiquei doente, quase peguei pneumonia e tive que voltar. Aí minha filha ia ter nenê e acabei mudando de rumo.
Como foram esses seis anos de vida artística?
Ana Lúcia - Uma maravilha. Comecei e, de cara, fui convidada para gravar um disco. Tive programa exclusivo na TV Tupi, patrocinado pelos perfumes Tabu, de Dana; depois pelos móveis Lafer. Aí comecei a conhecer todo o pessoal: João Gilberto, Tom, Vinícius. As reuniões de bossa nova, em São Paulo, eram a maioria na minha casa. Todo mundo ia lá. Vinícius, o pessoal de teatro, do Oficina, Zé Celso, Antunes... Lancei ‘‘Samba em Prelúdio’’, com Geraldo Vandré, em 62, mesmo ano em que fui para Nova York, no lançamento da bossa nova no Carnegie Hall.
No grupo de atores que ia na sua casa estava Cacilda Becker?
Ana Lúcia - Cacilda não frequentou minha casa, ela era um pouco mais velha. Mas fiz um programa com ela, ‘‘Inteligentzia’’, do qual me orgulho muito. Cacilda dizia trechos - até de tragédias gregas - e eu cantava com Luiz Chaves, que é o baixista do Zimbo Trio. Ele só no arco. Era chiquérrimo, primeira linha - somente voz e o baixo. Isso na televisão, num programa, que não me lembro se era na Excelsior ou Tupi. Para mim foi uma honra; se em seis anos terminei a carreira, percebe-se que eu era uma iniciante. E cantava junto de Cacilda Becker, que já era superstar naquela época.
Como é essa história de você ter lançado ‘‘Samba em Prelúdio’’ cantando com Geraldo Vandré?
Ana Lúcia - Quando eu ia gravar um disco procurava o Tom, o Vinícius, aqueles compositores que me agradavam, para formar repertório. E dessa vez eu ia lançar mais um e fui procurar música. Tinha essa, que eu pedi ao Vinícius, e convidei o Geraldo Vandré. Mas achei tão bonita a música que falei ‘‘vou lançar logo, antes do LP, porque essa vai estourar’’. Saiu um compacto simples e, realmente, estourou. Foi uma beleza, abriu-me as portas.
Você pensa em voltar aos estúdios?
Ana Lúcia - Não. É difícil, muito difícil. Hoje em dia, no meu gênero, só se você for uma Nana Caymmi, fora disso não toca nem no rádio. A Wanda Sá, por exemplo, gravou uns discos lindos com Roberto Menescal, mas ninguém conhece. Uma Rosinha Passos, uma Fátima Guedes, Alaíde Costa - maravilhosa - ninguém toca.
Que cenário é esse que a gente vive?
Ana Lúcia - O que tem agora, é a bundinha? Então são 800 mil conjuntos com a bundinha. Se é Chitãozinho e Xororó, aparecem outros 500 mil e todo mundo vira boiadeiro. Não é possível uma coisa dessas, ninguém sabe que existe outra música no Brasil, porque não ouve. Pior é que tem gente que sempre viveu em São Paulo e agora aparece de country.
A música brasileira caiu na vala comum?
Ana Lúcia - Não é que a nossa música tenha caído, ela continua boa. Mas você não vê João Bosco nem na televisão, pouco vê Djavan, Milton, Caetano. A Nana está aparecendo mais por causa da música da novela. Mas tem muito conjunto de pagode, que você nunca ouviu, e está aí, as meninas caem no chão e morrem, mas você nunca ouviu. E cadê Zizi Possi? Você não ouve mais. Rádios, televisões - está tudo comprado. Meus netinhos gostam do meu disco, de ouvir ‘‘Acalanto’’. Mas o povo não tem condições de ouvir isso.
Esta enrascada tem saída?
Ana Lúcia - A Hebe Camargo, que é uma pessoa que tem um sucesso danado, que é reconhecida, não poderia pelo menos uma vez por semana botar uma pessoa boa, além daquilo que a gravadora exige? Um só: um Djavan, um Bosco, um Milton. Botar uma coisa de classe. Todo mundo só pensa em dinheiro hoje. Aí você vê que meia dúzia está fazendo sucesso: liga a televisão e num canal dá eles; no outro, eles; e no outro também são eles. Só dá aquilo. Vou te dizer, é de amargar. Um país de Tom Jobim, de Noel Rosa, de Ary Barroso, de Vinícius de Moraes... É uma vergonha, mas enfim...

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