Em Londrina, três mulheres falam do corpo político na poesia
Na sexta (15), Ana Martins Marques (MG), Angélica Freitas (RS) e Mar Becker (RS) abordam o corpo e a política como lugares de expressão poética
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
Na sexta (15), Ana Martins Marques (MG), Angélica Freitas (RS) e Mar Becker (RS) abordam o corpo e a política como lugares de expressão poética

Em sua 44ª edição, a Semana Literária do Sesc PR que tem como tema “Cidades Literárias”. Reconhecida pela pluralidade de tema e autores, o evento consolida-se ano após ano pela atratividade dos palestras, oficinas, exposições e intervenções literárias.
Na programação desta sexta (15), às 19h30, o bate-papo intitulado "Úteros, Casas e Palavras", mediado pela jornalista Layse Moraes, será com as poetas Ana Martins Marques (MG), Angélica Freitas (RS) e Mar Becker (RS). Elas figuram entre as principais poetas brasileiras contemporâneas e, na ocasião, irão debater como a produção poética se torna um lugar de expressão para o corpo e a política.
Leia mais:
A escritora gaúcha Mar Becker acaba de realizar sua primeira participação na programação da da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, ao lado da paraense Monique Malcher. Antes de desembarcar em Londrina, falou por telefone à Folha de Londrina sobre sua trajetória, escrita e processo de criação.
Natural de Passo Fundo, conta que começou a escrever (poesia, mas não só; também pequenas narrativas) com regularidade lá por 2009, 2010, Era a época dos blogs, que antecedeu as redes sociais. "Difícil dissociar em mim o começo da escrita do encontro com os livros, através da leitura. Acho que uma coisa levou à outra".
Em Passo Fundo, o acesso que teve aos livros foi sempre mediado por instituições públicas, de acordo com o que havia disponível nesses lugares – a biblioteca pública, a escola pública. "Meu método de procura tinha menos de pesquisa e estudo, mais de intuição e oracularidade: abria uma página qualquer, e se algo dela brilhasse a mim – uma frase, uma palavra, uma ideia – prosseguia com a leitura. Quando me tornei leitora, parte de mim passou a querer também escrever", revela.

Com os pés fincados em São Paulo, (SP), a autora de Canção Derruída (Assírio & Alvim/Portugal, 2023) e Noite Devorada (Círculo de Poemas, Fósforo, 2025), entre outros títulos, foi indicada ao Prêmio Jabuti, e recebeu os prêmios Minuano e Ages, do estado do Rio Grande do Sul.
Também assinou duas mostras para o Museu Nacional da República, Brasília, e é poeta convidada para um dos episódios da série-documentário "Poesia e Música (seis poetas brasileiras)", que estreia em agosto no Canal Arte 1, com curadoria de Heloísa Teixeira e direção de Ísis Mello.
TOCAR AS FONTEIRAS DA LÍNGUA
A vida íntima, a cena doméstica permeiam seus textos. E Becker explica: "Não por ela em si, mas pelo que dela se depreende como busca de lugar, como sombra recaindo sobre um centro de foz arrancada, de ferida nascitura", poetiza.
De modo coerente, esmiúça que em seu texto há muito do desejo de tocar nas fronteiras da língua. "Costear com o dizível o indizível, eriçar na letra mesma qualquer coisa de sol negro, de silêncio. O amor – e suas imagens, sua febre, seus orfanatos, seus desvãos – tem igualmente me feito visitá-los.
Junto da admiração pelos textos, de Becker, os leitores tentam decifrálos. "Vale dizer que, mesmo quando parte do vivido, escrever é ficcionalizar. Por exemplo, um dos textos que escrevi para 'Sal', um material longo, leva o nome do bairro Annes, de Passo Fundo. As pessoas às vezes perguntam se vivi aquilo, se as janelas eram enormes, se havia mesmo uma edícula com as manequins… Bom, não exatamente, aqui e ali sim, mas também pouco importa", reflete.
O que importa, de seu ponto de vista, é o o que no campo daquela língua se pode descobrir como tessitura de um pavor delicadíssimo, porque afinal é disso que se trata. "O amor quando encruzilha-se com um frêmito de medo, ali onde tudo é ainda nascença", acrescenta.
Entre o ler e reler sobre sua obra, os leitores dedicam-se em exaltar Becker. O poeta Tarso de Melo escreveu: "Voz inconfundível na poesia contemporânea brasileira, Mar Becker abre agora as portas do seu universo particularíssimo para falar de amor. Ou melhor: para amar, palavra por palavra, e fazer o amor falar. Em 'Noite Devorada', a poeta gaúcha dispõe os versos como se mostrasse, pouco a pouco, os movimentos dos corpos que se amam: “o amor fez frágeis demais minhas/ palavras// e eu agora temo feri-las de morte sussurrando-as”.
Do jornalista e crítico literário Bruno Inácio, um recorte que a valoriza também. "Desde a sua estreia na literatura, Mar Becker tem sido apontada como uma das vozes mais autênticas da poesia contemporânea. E não é para menos: seus versos evidenciam um trabalho bastante apurado de linguagem, com cada palavra e cada silêncio precisamente encaixados", escreveu.
POETAS CONTEMPORÂNEAS
A também gaúcha Angélica Freitas é autora dos livros "Rilk Shake" (CosacNaify e 7Letras, 2007); "O útero é do tamanho de um punho" (Cosac Naify e Cia. das Letras, 2012); "Canções de atormentar" (Cia. das Letras); além do recente "Mostra monstra" (Círculo de Poemas). Também integrou a programação da Flip 2025. Sua literatura reúne de forma criativa referências eruditas e populares.

A mineira Ana Martins Marques publicou seu primeiro livro, "A Vida Submarina" em 2009, pela editora Scriptum, a obra foi reeditada pela Companhia das Letras em 2021.
Ela conquistou o Prêmio Alphonsus de Guimaraens pelo segundo livro, "Da arte das armadilhas" (2011), vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional. Também é autora de "O Livro das Semelhanças" (2015). Em 2022 foi finalista do Prêmio Oceanos e do Prêmio Jabuti com "Risque esta palavra." Em 2024, voltou a ser finalista do Jabuti, com "De uma outra Ilha."

SERVIÇO:
44ª Semana Literária SESC PR e Feira do Livro
Sesc Cadeião Cultural, rua Sergipe, 52, em Londrina
Bate-papo: Úteros, Casas e Palavras, com Ana Martins Marques, Angélica Freitas e Mar Becker
Quando: sexta-feira (15), das 19h30 às 21h
Gratuito
*
Confira a programação desta quinta-feira (14)
10h às 11h30: Bate-papo: Adolescência – Masculinidade e outros conflitos em debate, com Mateus Oliveira
14h às 14h40: Contação de Histórias: Saberes da Oralidade – A lenda do Berimbau e o causo do brincar, com Zaíra dos Santos
16h às 16h40: Contação de Histórias: Saberes da Oralidade – A lenda do Berimbau e o causo do brincar, com Zaíra dos Santos
16h às 19h: Oficina: Escrever a Memória, com Taís Bravo
19h às 19h30: Leitura dramática do conto “Penélope”, de Dalton Trevisan, com Núcleo de Teatro Cadeião
19h30 às 21h: Bate-papo: Lembrar e recontar, com Eliane Marques e Morgana Kretzman


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.




