Em grande estilo
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segunda-feira, 26 de maio de 1997
Telma Elorza 
O Festival Internacional de Londrina (Filo) começa hoje com uma superprodução canadense: o espetáculo Les Âmes Mortes, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde. Produzido pelo Carbone 14, um dos grupos teatrais mais respeitados internacionalmente, o espetáculo será apresentado também amanhã e quinta-feira, no mesmo horário e local. Estas serão as três únicas apresentações que o grupo fará no Brasil, seguindo depois para Israel.
Les Âmes Mortes (As Almas Mortas) é uma reflexão política de uma sociedade desgatada. Segundo o diretor e autor do roteiro, o premiado Gilles Maheu, a idéia do espetáculo é falar sobres os ritmos da cidade grande em contraposição ao do campo, enfocando os graves problemas sociais que podem ser encontrados em qualquer metrópole do mundo. Não sei como são as questões sociais aqui em Londrina, mas em Montreal e outras cidades norte-americanas e européias, a questão da droga, principalmente heroína, é muito séria. É comum encontrar grupos aplicando a droga nos centros das cidades - conta.
Dança e teatro Misturando teatro e dança, o espetáculo - que traz apenas uma única frase e tem a narrativa conduzida por silêncios e mobilidades - é contado por quatro casais em uma casa velha e abandonada. O primeiro destes casais, jovens modernos, foram claramente inspirados nos toxicômanos de Montreal, jovens que correm o tempo todo atrás de coisas que não têm. Para mim, são a expressão da juventudade desesperada, em busca de um ambiente afetivo que a sociedade atual não oferece - explica Maheu.
Em contraposição, há o casal de camponeses que vive da terra e tem tempo de curtir o tempo. Situados antes da época atual (inclusive antes da eletricidade no meio rural), são as personagens que marcam profundamente a perda de valores da sociedade atual. Eles são exatamente o contrário dos tempos modernos nas cidades, onde, apesar de todas as facilidades tecnológicas, ninguém pode perder tempo para olhar a natureza - afirma.
O terceiro casal está situado na década de 50, do pós-guerra e do começo do sonho americano, onde se imaginava que tudo fosse possível e que todos os sonhos se realizariam e o último, uma avó e sua neta, que representam o passado e o futuro, a vida que prossegue. Esta também é a dupla que representa o poder da família - explica. Estas são as almas mortas que retornam para viver pedaços de suas vidas dentro do casarão.
Para o diretor, o espetáculo não estabelece nem discute questões morais, mas põe em reflexão a sociedade que fabrica molduras onde as pessoas têm que se encaixar para serem aceitas, esquecendo o lado pessoal. É mais um trabalho que mostra como ser feliz no amor, na sociedade, com ter esperança, como ter um sonho, seja na família, no trabalho ou nas atividades sociais. Porque, sem isto, você está morto.
Produção difícil Embora este não seja o espetáculo mais recente do grupo (estreou em abril de 1995), foi um dos que mais impressionaram a comissão organizadora do Filo e convidado especialmente para este festival. Também é um dos mais difíceis de serem produzidos fora do local para onde foi concebido. Segundo Fernando Jacon, diretor técnico do Filo, o espetáculo canandense, embora tenha sido idealizado a partir de improvisações, é de um rigor técnico e artístico impressionantes. É uma montagem extremamente complexa, com um único cenário - uma casa com paredes de seis metros, dois andares, várias portas - e que requer um palco com facilidades cênicas que o Ouro Verde não tem. Tivemos que adaptar vários recursos cênicos especiais e planejar todo o espaço da coxia - diz.
Um dos recursos que exigiram muito planejamento foi a instalação de barras de luz a oito metros de altura. Como não temos elevador de cena, tivemos que usar escadas de alumínio. São estes tipos de complexidades que dificultam a montagem. E a parte técnica deste espetáculo tem que ser precisa, as deixas de luz são muitas e importantíssimas. Por isto o grupo teve até que trazer a mesa de luz computadorizada do Canadá - afirma.
O Carbone 14 é famoso internacionalmente por sua tradição na criação artística e pesquisa avançada na linguagem teatral - que mistura texto, dança, música e cinema - , movimento e direção. As criações do grupo analisam arquétipos sociais contemporâneos através de temas como sociedade de consumo, colapso das ideologias, solidão humana e violência. Em 90, Gilles Maheu recebeu um prêmio da Associção de Críticos de Teatro de Quebec por seu trabalho experimental, que segundo a associação influenciou o teatro da década de 80. Dois anos depois, o diretor e a companhia receberam prêmio especial do National Arts Center, de Ottawa; e, em 95 o Arts Council do Urban Community de Montreal concedeu ao grupo o Grand Prix 94 por sua produção teatral.
q Les Âmes Mortes - com o grupo canadense Carbone 14, hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Os ingressos têm valores diferenciados: setor 1, R$ 15; demais setores, R$ 10. Estudantes, funcionários da UEL e aposentados pagam meio ingresso.


