Nelson Sato
De Londrina
O espólio de Andy Warhol, o dândi do pop, já rodou o mundo. Agora, pouco mais de uma década após sua morte, instala-se no Brasil na maior exposição já realizada sobre sua obra em terras tropicais.
A mostra será inaugurada amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, ficando aberta ao público até o dia 12 de dezembro. A coleção, sob curadoria de Jacob Baal-Teshuva, reúne cerca de 240 obras abrangendo a produção do artista de 1952 a 1986.
Warhol será representado no acervo pelo que legou de mais estimulante ao longo de sua trajetória, o que inclui obviamente as famosas séries das latas de sopa Campbell’s, a celebração da garrafa de Coca-Cola e os retratos de Marilyn Monroe, Elvis Plesley e Jackie Kennedy.
A exposição, pelo que traz pela primeira vez ao país, impressiona. Ao visitante informado, será curioso percorrer as salas levando em conta tudo o que se revelou a respeito de Warhol. Sabe-se, por exemplo, que várias das peças reunidas nesta mostra nasceram de dicas de amigos.
No livro Popism – The Warhol’60s, ele mesmo confessou: ‘‘Nunca fiquei constrangido em perguntar literalmente a alguém: ‘o que devo pintar?’ pois o pop vem de fora e por que pedir idéias a alguém seria diferente de procurá-la numa revista?’’
A série ‘‘Morte e Desastre’’, uma das presentes na exposição, foi gestada a partir da leitura de um jornal sugerida por um de seus camaradas durante um singelo almoço. Warhol abriu uma página, leu a manchete ‘‘129 morreram num jato’’ e foi para o ateliê. Da mesma forma surgiram seus auto-retratos, desta vez depois de uma conversa com outro parceiro de noitadas que comentou que boa parte de sua fama se devia à sua aparência.
Warhol nunca obteve unanimidade da crítica. Ainda hoje polariza opiniões. Enquanto uns o consideram o último artista genial do século, outros o vêem apenas como um hábil manipulador da mídia. Há ainda os que menosprezam seu legado como artista plástico, preferindo elevar às alturas sua incursões como cineasta.
É uma pena, aliás, que o organizador desta mostra não tenha incluído seus radicais filmes na programação. Um deles, ‘‘Sleep’’, consistia de uma única cena: um homem dormindo. Sua duração: 5 horas e 21 minutos. Outro, ‘‘Empire’’, mostrava um único plano sem cortes do Edifício Empire State. Sua duração: 8 horas.
De imagens em movimento, os visitantes terão que se contentar com três documentários sobre arte pop a serem exibidos no final do mês sob curadoria do videomaker Marcello Dantas. Na série, batizada Evidência, Warhol aparece em duas fitas: ‘‘Superstar’’ traz um perfil do artista e ‘‘Cenas da Vida de Andy Warhol’’ mostra sua intimidade nas famosas festas em companhia de amigos com a música da banda de rock Velvet Underground rangendo ao fundo.
Um espetáculo de teatro também está programado durante o evento. A peça, apropriadamente intitulada ‘‘Pop’’, será dirigida por Gawronski. Nada mais justo para um artista que atuou em múltiplas frentes. Mas é provável que a curiosidade se dirija mesmo para as paredes do CCBB, particularmente em relação aos primeiros trabalhos do artista e às criações de sua última fase, sobre as quais pairam ainda muitas incógnitas.
Pouco se divulgou de suas atividades como artista gráfico na década de 50, assim como quase nada veio à luz de sua produção na década de 80, com exceção de um conjunto de telas pintadas em parceria com seu protegido Jean-Michel Basquiat. Warhol fez fama e fortuna exatamente no hiato entre esses dois períodos.
Foi a época em que virou celebridade, aglutinando em torno de si todo mundo que importava nos Estados Unidos. Dava as caras em todas as festas, colunas sociais e orgias. Um crítico nova-ioquino chegou a dizer que uma forma de saber se uma pessoa esteve em algum ponto de Nova York na segunda metade do século 20, era ter visto Andy Warhol desfilando sua cabeleira branca por ali também.
Tudo gravitava em torno da Factory, QG de personalidades do mundo cultural e usina permanente de criação. Foi ali que ele lançou o Velvet Underground e diversificou sua atuação realizando filmes que muitos consideram ainda hoje imbatíveis em termos de radicalidade estética. Foi a partir da Factory que ele difundiu a arte pop ao lado de companheiros de geração como Roy Lichtenstein, Robert Rauschenberg, James Rosenquist, Jasper Johns e Claes Oldemberg.
Foi o último grande movimento nas artes plásticas. E é a obra de seu mais controverso expoente que estará aberta ao público a partir de amanhã no Rio de e Janeiro.

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