Em 1972, um processo de expulsão foi aberto contra o ex-Beatle John Lennon, então morador dos Estados Unidos. O motivo: Lennon, havia algum tempo, liderava uma campanha pela paz, e contra a Guerra do Vietnã, e isso desde 1969. Por que a perseguição começou apenas em 1972? É o que se perguntam os diretores do documentário ''The U.S. vs. John Lennon'', David Leaf e John Scheinfeld. Nesse ano começa a campanha de reeleição de Richard Nixon. Em novembro de 1972, Nixon é eleito para o segundo mandato e, um mês depois, o FBI encerra as investigações que visavam a deportação do astro.
Coincidências? Tudo menos isso, sugerem os autores desse belo documentário, um intenso retrato de época dos anos 60 e 70. O fio condutor desse painel é a virada política de Lennon, das baladas românticas ao seu pacifismo incômodo, que começa após a união com Yoko Ono. Tudo isso faz parte da biografia de Lennon, o percurso de músico romântico ao artista que participa ativamente dos problemas de sua época. E há, nesse tempo, uma marca de geração crucial - a intervenção americana no Vietnã.
A dupla de cineastas recolhe imagens da campanha do casal - por exemplo, quando eles se expõem na cama, em Amsterdã, ou com o cartaz em que afirmam que ''a guerra acabou - desde que você assim o deseje''. Marca do tempo, também, em que talvez se confundisse um pouco desejo com a realidade. Basta lembrar dos estudantes no Quartier Latin em Paris e sua divisa: ''Soyez réalistes - démandez l'impossible'' (sejam realistas, peçam o impossível). Ou, ''a imaginação no poder''. Utópicos, sim, mas esse desejo de utopia fazia o mundo se mover, pelo menos um pouco. Não o tanto que se queria e desejava, mas pelo menos um pouco.
Esse ativismo incomodava os poderosos. Daí que a presença de Lennon nos Estados Unidos tenha se tornado um estorvo, em especial durante a campanha de Nixon. O presidente, e aqueles que agiam em seu nome, tinham razões para se sentir ameaçados. Por exemplo, em dezembro de 1971, Lennon realizou um concerto para protestar contra o encarceramento de um homem pela posse de dois cigarros de maconha. Pegou dez anos. Lennon compôs uma canção especialmente para o evento - ''John Sinclair'', conforme o nome da pessoa - e a manifestação teve efeito arrasador. Poucos dias depois, a Suprema Corte do Michigan ordenou a soltura de Sinclair.
Atos simbólicos produzem efeitos, eis a questão. E portanto a ordem era pressionar Lennon e Yoko durante a campanha pela reeleição. O casal foi colocado sob vigilância, teve o telefone grampeado e sofria ameaças. O dossiê do FBI sobre Lennon é extenso e seu conteúdo foi revelado no livro de Jon Wiener ''Gimme Some Truth''. Tudo era monitorado - das entrevistas de Lennon na TV ao cotidiano da filha de um casamento anterior de Yoko.
O filme é muito emocionante e evoca o autor de ''Imagine'' como alguém que resumia idéias políticas em frases simples e eficazes como ''Tudo o que queremos é que se dê uma chance à paz''. Yoko lembra a emoção de Lennon por ocasião do nascimento do filho, Sean. Vê-se também a comoção mundial com seu assassinato, em Nova York, em 1980.
''The U.S. vs. John Lennon'' ultrapassa o caráter memorialístico e se aplica ao presente. Num momento de enfrentamento de Bush com a opinião pública a propósito da presença militar no Iraque, os cineastas lembram que ''os mesmos problemas que John Lennon teve com o governo 35 anos atrás - liberdade de expressão, confusão entre discordância e deslealdade, grampos telefônicos ilegais e, principalmente, abuso de poder do governo em tempo de guerra - estão na ordem do dia nos Estados Unidos''.

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