EM FOCO - Um filme para o brilho do ator
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Hollywood sempre reivindica o excesso das estrelas como sinal de identidade, mesmo quando estrelas são tão atípicas como Philip Seymour Hoffman. Alguém que, por força do talento, fez da falta de atrativo exatamente seu atrativo principal.
Num drama sóbrio como ''Capote'', mas com um componente de impostada gravidade, a interpretação de Hoffman constitui todo um espetáculo. Sua reencarnação de Truman Capote (que também a seu modo era uma estrela) desgasta o dramatismo do episódio decisivo na vida do escritor, cuja obra e trajetória registraram de um lado o sul dos Estados Unidos mais decadente e de outro a Nova York mais esnobe - é dele ''Breakfast at Tiffany's'', transformado no ótimo ''Bonequinha de Luxo'', de Blake Edwards.
O filme do estreante Bennett Miller evoca os anos que Capote dedicou a escrever ''A Sangue Frio'', novela-reportagem que impôs novos rumos ao jornalismo investigativo contemporâneo. No livro, a descrição minuciosa sobre o assassinato de uma família inteira em uma pequena cidade do Kansas, cometido por dois delinquentes baratos que nem conseguiram roubar nada.
As ambições de inaugurar um gênero e de obter êxito editorial histórico tornam ainda mais complexa a personalidade de um autor obcecado por determinado crime real, de um cronista que afirmava não mentir quando escrevia, mas que mentia quando lhe interessava, de um refinado hedonista convertido em relator de uma atrocidade e testemunha de uma execução. De alguém, afinal, dotado de extrema sensibilidade, mas no entanto contagiada pela mitomania, pela indolência e pelo egoísmo.
O melhor de ''Capote'' está na descrição da ambiguidade do caráter do personagem, refletida também na planificação que o mostra um ser mutável, inclusive na estatura. E como ponto mais vulnerável, o filme não explora toda a carga de angústia do processo de escrever um livro. Mas sem nenhuma discussão, paira soberano o ator Philip Seymour Hoffman,que levou para casa o Oscar e o Globo de Ouro mais unânimes dos últimos tempos.


