EM FOCO - Poético e sensorial
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de março de 2006
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Vencedor do Prêmio Multicultural Estadão Cultura de 2003, Ruy Guerra é um diretor que tem mais do que simplesmente um currículo respeitável fez grandes filmes do Cinema Novo (''Os Cafajestes'', ''Os Fuzis'') e depois nunca cessou de surpreender, buscando sempre a radicalidade em obras como a sua adaptação de ''Estorvo'', de Chico Buarque. Criou-se a fama do diretor exigente e difícil. Exigente, tudo bem, mas difícil? O próprio Guerra observa '''Variety', a Bíblia do cinema de Hollywood, fez uma crítica favorável de ''O Veneno da Madrugada''. E, anos atrás, quando foi comentar o documentário ''Mueda, Massacre e Memória'', o crítico da revista também revelou um bom conhecimento da minha obra.''
Adaptar um livro de Gabriel García Márquez é sempre difícil porque o escritor colombiano não atua no registro do realismo. ''O Veneno da Madrugada'', que estréia hoje em circuito nacional, baseia-se em ''La Mala Hora''. ''Ele (o escritor) trabalha com um universo mitológico'', diz o cineasta, dando outro nome ao 'realismo mágico' de Gabo. Sob esse prisma, a magia de Veneno consiste em criar não um sonho, mas um pesadelo. O primeiro desafio que Guerra se impôs foi fazer o filme com fotografia escura, chuva do princípio ao fim e muita lama. Isso, obviamente, criou problemas no set, mas ele adora os desafios. Guerra queria lançar ''Veneno ''em cópias (e projeção) digitais, mas aí, com o fotógrafo Walter Carvalho, descobriu que as próprias condições específicas da imagem poderiam prejudicar a intenção e recuou. Foi uma das raras coisas de que abriu mão em ''O Veneno da Madrugada''.
Seu desafio maior refere-se ao tempo. No Festival de Tiradentes, homenageado pelo conjunto da obra, Guerra mostrou seu primeiro longa, ''Os Cafajestes'', que provocou escândalo pela nudez frontal de Norma Bengell, em 1962, e o mais recente, ''Veneno''. Embora separados por mais de 40 anos e por condições distintas de produção, os dois filmes são muito próximos. Um trabalha num universo mítico, o outro trata de cafajestes urbanos. Ambos são esplendorosamente filmados e atribuem uma importância imensa ao tempo, tema essencial no cinema de Guerra. A estrutura temporal de ''Veneno'' leva a uma narrativa em espiral. A história passa-se numa cidadezinha isolada pela chuva e dominada por um alcaide que sofre com a dor de dente. Ele luta contra a elite representada pela viúva Assis. Leonardo Vieira e Juliana Carneiro da Cunha interpretam os papéis. Há um mistério entre eles, que fica claro mais tarde. E há um crime, reconstituído em três diferentes versões.
Guerra não pretendeu fazer uma variação do clássico ''Rashomon'', de Akira Kurosawa, que, aliás, admira. A soma das três versões produz uma quarta no espectador é o filme. O diretor admite que trabalha, cada vez menos, com reações de causa e efeito. Isso tem a ver com sua fascinação pela física quântica, que relativiza a questão da realidade e do tempo. ''Talvez por isso meus filmes estejam ficando mais complicados'', ele diz. A soma de esplendor visual, o universo mítico de García Márquez, com seus alcaides e putas tristes, o provincianismo político, a corrupção mais do que Mikhail Kalatozov em ''Soy Cuba!'', Guerra criou, em ''O Veneno da Madrugada'', o perfeito mamute siberiano. Seu filme provoca uma admiração fria. Ele discorda, mas compreende. ''Veneno'' estréia num circuito reduzido. É um filme que precisa ir devagar, ocupando o espaço em busca do público que vai assimilar suas ousadias.


