Saudade é palavra inexistente no dicionário do músico Paulinho da Viola. Fica difícil acreditar nisso quando seu violão toca nostálgico ou suas letras fazem um resgate velado das próprias raízes. Mais difícil ainda quando nos lembramos que o compositor cresceu vendo músicos como Jacob do Bandolim frequentarem sua casa. Mas sua relação peculiar com o tempo justifica tudo. ''Eu não vivo no passado, o passado vive em mim'', diz ele, a certa altura do documentário ''Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje''. O filme foi realizado em quase três anos e faz parte de um projeto do documentarista João Moreira Salles, da Vídeo Filmes, que já havia rodado um documentário sobre o pianista Nelson Freire e queria produção similar com um ícone da MPB.
O tempo é o fio condutor de ''Meu Tempo É Hoje'', dirigido por Izabel Jaguaribe e roteirizado pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura (e que divide os créditos com Izabel e Joana Ventura). Foi um dos múltiplos aspectos da vida do músico, que a dupla decidiu investir e desenvolver, por sugestão do próprio Paulinho da Viola. Ao lançar o tema, o compositor apontou para uma questão que não só permeia sua obra, como também faz parte de sua vida.
Para Paulinho, não existe uma distinção entre passado e presente, como se todos os tempos estivessem inseridos num momento único. ''Sei que 'Carinhoso', de Pixinguinha e João de Barro (a preferida dele), foi feita em 1917, que eu nasci em 1942, que era uma outra realidade, sei distinguir esses momentos, mas eles estão dentro de um único tempo para mim e posso vivenciá-los quando eu quiser'', reflete ele.
O documentário aborda ainda o tempo interno de Paulinho, aquele que conduz o ritmo de sua vida. E é notório que o tempo do músico é diferente. Tranquilo e discreto, Paulinho parece levar uma vida sem pressa. E com o passar da convivência, Izabel Jaguaribe e Zuenir Ventura descobriram outras facetas do músico, que, de certa forma, dialogam com a temática do tempo: sua paixão pelo jogo de sinuca e por trabalhos manuais, como a marcenaria e o restauro de carros antigos. ''Tínhamos uma idéia inicial de fazer um documentário sobre o Paulinho e ele mostrou sua preocupação com o tempo. A partir disso, esboçamos alguns caminhos e, de alguma forma, o roteiro foi se construindo durante a filmagem'', explica a cineasta. ''Em um documentário, a grande sabedoria é você saber assimilar o acaso.''
O acaso rende bons resultados e momentos até divertidos, como a cena em que Paulinho vai até a garagem onde, há anos, constrói e reconstrói os tais carros antigos. Acompanhado da mulher, Lila, o músico tira a capa de um dos modelos e começa a descrevê-lo. Quando Lila se depara com o carro praticamente na carcaça, não consegue se conter. ''Estou decepcionada'', diz ela, que já havia visto aquele mesmo carro pronto, com farol e tudo, algum tempo atrás. Apesar do certo desconforto de se ver passar por tais situações, o compositor acatou a opinião de Izabel e Zuenir para que situações do gênero permanecessem no documentário. Sempre com a maior delicadeza e elegância, é bom ressaltar. A seguir a entrevista com o cantor e compositor.
O tempo é o fio condutor do filme e, segundo Zuenir e Izabel, o mote partiu de você. Como chegou ao tema?
É resultado de muita conversa e de um estalo. Eu não tenho nada de nostálgico, de saudosista. Não vivo no passado, que é algo vivo em mim. Me causa surpresa quando vejo pessoas que se referem a fatos de cinco anos atrás como se isso fosse longe.
E quando se deu conta dessa relação?
Eu percebi há algum tempo. E fiquei despreocupado. Pois minha preocupação antes era simples: eu não posso acompanhar esse ritmo que está aí. Técnicas cada vez mais avançadas, quantidades absurdas de informações. É como se eu quisesse me autopunir por não ter capacidade de acompanhar esse ritmo. Um dia, falei: ''Peraí, eu tenho os mesmos anseios de outros, tenho de comer, dormir, calçar sapatos. A gente precisa de um tempo para isso.''
E como foi para você, tranquilo, recatado, viver no foco de uma câmera durante tanto tempo?
No começo houve uma opressão da câmera. Para mim, músico, estar diante de uma câmera é algo que sempre balança. O primeiro programa de TV que fiz foi o da Hebe. Quando a Hebe percebeu que eu não conseguia falar, ela disse: ''Ih, mas ele é tão tímido.'' Aí eu fiquei duro mesmo. Com o passar do tempo, fui superando. A minha timidez ficou lá trás, minha insegurança não.
Mas no filme você teve de se mostrar como o Paulinho do dia-a-dia?
É, isso só foi possível porque Zuenir e Izabel souberam me conduzir. Eu me lembrei de momentos da minha vida, de desmontar carro, mexer com marcenaria. Desde menino, eu mexia com isso. Existia uma pequena marcenaria na minha rua. Tinha um senhor que chegava lá, tirava o paletó, afrouxava a gravata e ia trabalhar na bancada. E eu ficava ali, olhando. Isso me fascinava.
Você não se lembra com saudade?
Não, com alegria. Não está longe, está muito próximo.


Serviço:
- Documentário ''Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje''. Direção de Izabel Jaguaribe. Br/2003. Duração: 83 minutos.

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