EM FOCO - Desafio aos códigos do western
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Desde que o cinema é cinema, o western foi considerado o gênero mais paradigmático da hombridade e da virilidade. Território por excelência dos bravos e dos fortes, dos machos rudes e héteros das fronteiras, o western, quando muito, condescendeu com uma ou outra transgressão homossexual light, de resto sempre tratada com máxima discrição e sutileza, para não arranhar os pilares da América dos pioneiros.
Por isto, ''Brokeback Mountain'' surge na comunidade hollywoodiana no momento justo, quando ela se mostra receptiva às produções independentes, às propostas mais arriscadas, aos enfoques políticos contrários às ortodoxias, às minorias sexuais e inclusive, como neste caso, a uma história que desafia os códigos de fundação de um gênero tão clássico. Filmes como este questionam as próprias regras engessadas do cinema. Isto não é pouco, e requer, além de coragem, competência.
Baseado em elogiado conto de Annie Proulx, este western decididamente avesso aos cânones narra a relação passional e tortuosa entre dois jovens cowboys contemporâneos, Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal). Na região bela e isolada de Brockeback Mountain, ele fazem a dura lida de pastores de ovelhas. Numa noite gelada, esgotadas as reservas de whisky, dão rédea solta a uma tácita atração surgida no instante em que se conheceram na fila para o novo emprego.
Depois do idílio inicial, Ennis e Jack se separam, se casam, têm filhos, se reencontram e passam a levar vida dupla, cercados por uma sociedade reprimida, repressora e regulada pelas aparências. Apesar das pressões, não deixam de manter encontros secretos em Brokeback Mountain, aquela paisagem que marcou a vida de ambos. Paisagem metafórica que é a um só tempo lugar de amáveis recordações e cárcere privado para uma relação que não sobreviveria longe dali.
Nem escandaloso, provocativo ou audacioso, ''O Segredo de Brokeback Mountain'' é filme que adota um tom de narrativa cuidadoso e austero. É melodrama contido, às vezes frio e contemplativo. Aqui o clima, o poder de sugestão, a inteligência das observações adquirem peso e importância. Como se quisesse compreender o espírito do Oeste, Ang Lee filma a imponência e a eternidade imperturbáveis da natureza em contraposição ao desgaste emocional de seus personagens, aos estragos que o tempo vai acumulando sobre Jack e Ennis.
O olhar de Lee, todavia, vai mais além. O cineasta constrói contundente recorte de uma parte da América, através de temas que vem dissecando em sua filmografia: o amor, a amizade, a família, o confronto entre o velho e o novo. Assuntos recorrentes em ''Banquete de Casamento'', ''Tempestade de Gelo'', ''Razão e Sensibilidade'' e ''Cavalgando com o Diabo''.


