Se o anúncio de um vôo atrasado entra pelos ouvidos de um turista na mesma intensidade que a turbina de um Boeing, o estrago que a crise aérea faz na carreira dos músicos que vivem em pontes e estradas aéreas está sendo muito maior. Os ''sem avião'' - ou os ''com avião sempre atrasados'' - estão em Porto Alegre (RS) em um dia para, no outro, seguirem ao Ceará. De lá, devem embarcar para o Acre, que os aguarda com 10 mil ingressos vendidos, e retornarem a São Paulo, para uma breve temporada. Vida de músico, em crise aérea, ficou bem mais difícil.
O cantor e compositor Frank Aguiar, do alto de seus teclados e do posto de deputado federal, sente as amargas lições da crise. Ali no saguão do aeroporto de São Paulo, com horário certo para subir a um palco em Teresina, no Piauí, ou participar de uma sessão na Câmara dos Deputados, em Brasília, ele é exatamente igual ao jovem que vai passar férias nas praias de Porto Seguro (BA). A todos resta ''relaxar e gozar''. Ou explodir. ''Já cheguei a perder show por causa do caos. Ia pagar multa, mas o contratante entendeu que não era culpa minha.''
A reportagem só conseguiu falar com o cantor no período da tarde porque ele ficou por mais de três horas à espera de seu vôo para Brasília. ''Estou duplamente revoltado, como representante do povo e músico: pela primeira vez perdi uma sessão na Câmara. E foi por causa de um atraso absurdo.''
Os roqueiros, ratos de estrada por natureza, também têm mudado seus hábitos. A produtora Carol Palmeira, da banda Capital Inicial, faz o check-in dos músicos com 24 horas de antecedência e marca vôos o mais cedo possível. ''Se o show é à meia-noite, marco a passagem para meio-dia'', conta Carol. Yves Passarell, guitarrista da banda, conta que o grupo ''teve sorte por nunca atrasar um show''. O que pensam para evitar que isso ocorra? ''Já estamos cogitando fretar um jatinho para cumprirmos o combinado.''
A crise aérea não poderia ter vindo mais fora de época para os grupos paulistanos de forró, que migram dia sim dia não para as festas juninas do Nordeste. Tatto, vocalista do Falamansa, não consegue se controlar ao falar do assunto. ''Eu fico nervoso só de lembrar o estresse que passei.'' Há poucos dias seu grupo quase perdeu um show. ''Chegamos em cima da hora e quase tivemos um prejuízo de R$ 200 mil.'' E aí, passa a fazer um desabafo em nome da classe dos músicos sem vôo: ''A música está passando por um grande problema, que é a pirataria,e nem por isso eu faço greve. Por que os controladores de vôo não reclamam seus direitos e trabalham ao mesmo tempo? Se eles não querem trabalhar, tem quem queira.''
Os baianos do grupo de axé Jammil e Uma Noites sustentam até agora um recorde entre seus pares. Nenhuma outra banda, ao menos que se tenha notícia, ficou mais tempo acampado em um saguão do que eles: foram mais de 20 horas no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, Guarulhos, esperando pelo embarque. ''Em um determinado momento, tivemos o bom senso de ir a um hotel vizinho tomar banho e tirar uma soneca. Nos revezamos com os produtores. Se desse para embarcar, sairíamos correndo''. Na agenda dos rapazes havia uma reunião em Salvador, que quase foi perdida. Se não pensou em fretar um jatinho? Manno lembra bem. ''De que adiantaria?'', os problemas não estão nos aviões, mas nos homens que os controlam. ''Jatinho particular não adianta nada. Nenhum avião decola em um momento como esse.''
Terra firme tem sido a via mais segura e, quem diria, menos estressante para a classe musical. Zezé Di Camargo e Luciano investiram em um ônibus que, para ficar completo, só falta uma jacuzzi. Já o sanfoneiro Dominguinhos, por medo de avião, sempre cruzou o País de carro. Agora, então: ''Prefiro ficar com o caos da estrada mesmo.''

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