EM FOCO - A história de Elza
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quinta-feira, 07 de setembro de 2006
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
Em seu jeito ''dura na queda'' de ser, Elza Soares diz que é uma fonte constante de alegria, saúde, prazer, inspiração. Daí o título de seu novo show, Beba-me, que estréia hoje em São Paulo. ''As pessoas bebem dessa fonte às vezes até se embriagar'', brinca a cantora. Com roteiro montado a partir de pesquisa de repertório feita pelo especialista Rodrigo Faour, o show conta parte significativa da carreira de Elza, com forte presença de canções que registrou nas décadas de 1960 e 70, além de outras mais recentes.
Além de destacar momentos pontuais de sua história musical, Elza procurou dar ao show - que vai ser registrado para sair em DVD, o primeiro de sua carreira, e CD em 2007 - um sentido de restituição da brasilidade. ''A gente tem de falar do Brasil sem sentir vergonha. Estou chegando do exterior e a gente vê como gostam do Brasil lá fora'', observa. ''Todo brasileiro tem motivo de sobra para sentir vergonha do País, mas não falo de política, não, falo da brasilidade mesmo, de música de qualidade'', diz.
O desabafo talvez traga incrustada uma ponta de saudosismo, mas ela trata logo de retrucar. ''Quem vive do passado é o tempo. Para mim tudo é hoje. Mas havia a necessidade de uma releitura do meu trabalho, então fui buscar o que estava bom. O repertório é uma coisa digna da minha carreira. Recebi prêmio da BBC de Londres como a cantora do século 20, não posso dizer que passei pelo anonimato.'' Ela só ressalva que ficou mal com a perda do filho, a que se seguiu um período de ostracismo na carreira.
''Para uma mulher negra, pobre, casada tão cedo chegar aonde eu cheguei não é fácil. A gente vive num país altamente preconceituoso e se alguém disser que não, está mentindo'', frisa. ''É por isso que me identifico muito com o mundo gay, porque sofremos os mesmos preconceitos.Tenho muito respeito por eles, como eles têm por mim. O ser humano vive se digladiando demais, a gente tem de respeitar todo mundo.''
Reavaliando o legado musical, ela admite que nem tudo é perfume. ''Fiz muita coisa boa, mas também gravei muita porcaria, não vão me colocar num pedestal que eu não mereço. São essas contradições que me fazem viva.'' A voz continua firme, sem grandes cuidados. ''Minha voz é igual mulher de bandido, quanto mais apanha, melhor fica'', diz, rindo. Hoje, sem contrato com gravadora, ela diz que pretende correr o Brasil e voltar à Europa com Beba-me. ''Se tiver uma proposta grande, é claro que a gente vai estudar. Mas não gosto e não preciso de contrato com gravadora. Hoje em dia ninguém liga mais pra isso, está todo mundo free. Não tenho estilo, meu estilo são todos. Não sou uma marca de refrigerante. Sou atrevida mesmo.''
Elza também será tema de um documentário dirigido por Izabel Jaguaribe, a mesma que realizou Meu Tempo É hoje, com Paulinho da Viola. ''O filme é sobre a vida dela a partir de encontro com pessoas importantes que fizeram parte da história dela'', define Gonzaga. '
O documentário tem previsão para estrear nos cinemas em abril de 2007, coincidindo com o lançamento do CD ao vivo e do DVD, que devem sair pela gravadora Biscoito Fino. Elza está a mil, diz que o show é todo alegre, mas que ainda tem medo da fama. ''Basta mudar duas letras para virar fome'', ironiza. ''Mas não tenho do que me queixar.''


