Em direção ao topo do mundo
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terça-feira, 16 de agosto de 2005
Fábio Vendrame<br> Agência Estado 
Ponto mais alto do Japão, com 3.776 metros, o Monte Fuji é cercado por uma aura sagrada e, ao mesmo tempo, desafiadora. Há pouco mais de cem anos, apenas monges e peregrinos, em vestes específicas, podiam caminhar nele. Atualmente, turistas com espírito de aventura também tentam alcançar seu topo, numa escalada aberta ao público somente enquanto dura o verão no Hemisfério Norte.
Quase 500 mil pessoas encaram o desafio a cada ano. A subida tem o grau de dificuldade acentuado em razão das cinzas vulcânicas que se deslocam sob os pés dos visitantes, dificultando a caminhada. E também por conta da ação da altitude sobre o organismo. A partir dos 3 mil metros, náuseas e dores de cabeça tornam-se mais frequentes.
Tudo depende de como o organismo se adapta às condições do ar rarefeito. Há quem sofra apenas com a inevitável falta de fôlego. Aconselha-se, até, a levar pequenos tubos de oxigênio (à venda no caminho). Apesar de não se tratar de um dos roteiros mais almejados pelos montanhistas, a escalada ao Monte Fuji remontaria em dois séculos a subida ao topo do Mont Blanc o maior ícone do montanhismo na Europa. E isso também a torna especial.
''A escalada ao Monte Fuji é um processo de purificação mesmo'', atesta Osvaldo Sacagni, de 34 anos, que trabalha e vive atualmente no Japão. ''Chegar ao topo é apenas uma consequência para quem entende o grande significado de um vulcão'', filosofa o brasileiro. ''Para mim, foi uma experiência de superação'', diz. ''O mais bonito foi assistir ao nascer do sol. Também fiquei muito impressionado com a chuva de meteoros que tive a sorte de testemunhar.''
A subida ao símbolo maior do país do Sol Nascente tem início em julho e vai até o fim de agosto. É preciso cumprir dez estágios para alcançar o ponto culminante. Quem já foi garante que não se trata de uma escalada fácil. ''Até a quinta etapa é possível chegar de carro'', conta o aposentado Vicente Yoshioka, de 62 anos.
A partir do quinto estágio, as trilhas mais utilizadas são Subashiri, Gotemba, Fujinomyia e Kawaguchi-ko, que divide o caminho com a Yoshida. O tempo gasto na subida depende do ritmo de cada um, mas, em geral, seis horas parece ser uma média razoável. O circuito ao redor da cratera do vulcão leva cerca de uma hora. ''Qualquer um que tenha paciência e um pouco de fôlego chega lá'', diz Yoshioka. ''Mas quem sofre de pressão alta deve evitar'', recomenda.
Alcançar o topo também mexe com a auto-estima de quem consegue. ''Dá um sabor de vitória, de conquista'', diz a hoteleira Erina Shishiba, de 27 anos. Ela esteve lá em agosto do ano passado. ''Todos dizem que não sabem o que é pior: se a subida ou a descida'', conta a brasileira. ''No meu caso, foi a descida, que é muito escorregadia. A dor na batata da perna me fazia parar a cada momento'', relata. Mas todo o esforço é recompensado. ''O Fujisan é como um deus para os japoneses e, para nós, brasileiros, um verdadeiro desafio.''
Localizado no centro da ilha de Honshu, entre Tóquio e Kyoto, o Monte Fuji é chamado também de Fujisan. Quase sempre imerso em nuvens e coberto de neve, o monte originou-se de um vulcão inativo desde 1707. Fica no Parque Nacional de Fuji Hakone Izu e em sua base, há os Cinco Lagos Fuji, uma região que oferece atrativos turísticos com área para a prática de esportes e parques de diversão, entre outras opções de lazer.
Além da bela paisagem formada pelos lagos, nos arredores do Fujisan há outros pontos de interesse turístico, como cavernas, a floresta conhecida como ''mar de árvores'' e o Fuji-Yoshida uma base tradicional de peregrinação usada para oração antes e depois da escalada e que atualmente conta com pousadas e cachoeiras. Há também o Sengen Jinja, um dos mais procurados santuários locais dedicado à divindade da montanha.
O Fujisan tem como característica sua forma cônica quase simétrica e o fato de mudar de aspecto a cada estágio da escalada. Por isso, também serve como fonte de inspiração para diversos artistas. Talvez a mais famosa composição sobre a montanha seja a série de xilogravuras do século 19 denominada ''Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji'', assinadas por Ando Hiroshige (1797-1858), nas quais ele aparece como pano de fundo de diversos temas.
Para viver a experiência, vista roupas e calçados adequados (faz muito frio durante o percurso). Leve luvas e um abrigo impermeável. Algum mantimento, como chocolates e água também são importantes. Apesar de haver pontos de venda ao longo do caminho, os preços sobem conforme a altitude aumenta. Não há cestos de lixo no cume, de modo que é recomendável carregar seu próprio compartimento. Uma noite num refúgio custa em torno de R$ 150 por pessoa, com duas refeições.


