Em defesa do inusitado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de março de 1997
Eduardo Minc TV Press 
Luiza Dantas/Carta Z NotíciasRenata Sorrah: Gosto de viver personagens que não sejam óbviosRenata Sorrah se considera uma artista anti-naturalista por excelência. Por isso, quanto mais fora do comum forem os seus personagens, tanto melhor para ela. Adoro impor um tom a mais nos meus personagens, garante Renata. Tem sido assim com seus últimos trabalhos. Heleninha, em Vale Tudo, Pilar Batista, em Pedra sobre Pedra, Natália, em Pátria Minha, e agora com a Zenilda, em A Indomada, de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares.
Na pele da irreverente proprietária do prostíbulo Casa de Campo, a atriz vive um personagem decidido e autêntico, alvo preferido da moral burguesa imposta pelas beatas da cidade de Greenville. Ela não é a defensora das prostitutas, mas de todas as minorias, garante, em tom panfletário.
Aos 42 anos de idade, 27 deles dedicados à televisão, Renata se considera na plenitude da forma e dona do mesmo viço de quando fez a sua primeira novela, Assim na Terra como no Céu, em 1970. Foi mergulhando no seu passado que a atriz encontrou o caminho para compor a cafetina da novela das oito. Coloco nela muito do sentimento de liberdade que prezei desde cedo, afirma Renata, que não pára de mexer as mãos para reforçar cada frase.
Foi este sentimento que fez a então adolescente Renata estudar nos Estados Unidos, onde descobriu sua vocação para a carreira artística. Numa high school da Califórnia, ela teve a oportunidade de estrear no teatro, como contra-regra numa montagem amadora da escola. Odiava fazer o barulho do trovão com uma folha de zinco, recorda.
Irrequieta, Renata reveza a paixão que tem pela tevê com a que tem pelos palcos teatrais, onde, segundo ela, o ator bebe da verdadeira fonte artística. Seu último trabalho foi no espetáculo Mary Stuart, quando ganhou o Prêmio Mambembe de melhor atriz do ano passado. A Zenilda, de A Indomada, porém, está deixando a atriz exageradamente motivada. Afinal, ela não esconde o prazer em trazer à baila o ofício das prostitutas. Gente, vender o corpo não é tão grave como matar alguém!, enfatiza Renata.
Esta é a terceira novela de Aguinaldo Silva em que você trabalha. É mais fácil para o ator interpretar textos de um autor conhecido?
Renata Sorrah - É bem mais fácil e gostoso também. Hoje, acho que já conheço um pouco mais do universo do Aguinaldo. Até porque já trabalhei com ele em outras duas novelas: Pedra sobre Pedra e Vale Tudo, na qual ele foi parceiro do Gilberto Braga. Acima de tudo, ele é uma pessoa divertidíssima e não é naturalista. O Aguinaldo sempre coloca um tom a mais em seus personagens. E isso eu adoro. As pessoas, inclusive, sempre falam que eu tenho um tom a mais em todos os meus personagens.
O que vem a ser esse tom a mais?
Renata - Não é o fato de interpretar exageradamente algum personagem, mas o de transpor o naturalismo. Por exemplo: antes de fazer a Heleninha, em Vale Tudo, conversei com médicos e sempre me disseram que o alcoólatra é capaz de se transformar com apenas um gole. Eu levei isso ao pé da letra. Quando interpretava, tomava um gole, virava para a câmara e já me transformava radicalmente numa outra pessoa. Chegava mesmo a adquirir uma nova fisionomia. É engraçado porque muita gente já disse que eu só interpretava papéis de mulheres neuróticas. O fato é que gosto de viver personagens que não sejam óbvios.
Este é o caso da Zenilda, sua personagem em A Indomada?
Renata - Ela pertence a um núcleo paralelo da trama e, assim que pus os olhos na sinopse, percebi que poderia ser maravilhoso interpretar uma dona de bordel. A Zenilda não é uma prostituta. Ela herdou a Casa de Campo e faz questão de dizer que dirige o estabelecimento como se aquele fosse um negócio qualquer.
Como foi o processo de criação da Zenilda?
Renata - Bem, como a trama não é naturalista, procurei primeiramente fazer um mergulho interno para resgatar nas minhas memórias o apreço que sempre tive pela liberdade. Ao mesmo tempo, assisti a diversos filmes, como Noites de Cabíria, de Federico Fellini, e Meu Homem, do francês Bertrand Blier. Este filme é lindo e fala de uma mulher prostituta que adora o seu ofício. Chega a ser emocionante o prazer com que ela desempenha as tarefas sexuais. Ela tem clientes velhinhos e acredita piamente que está fazendo bem para a humanidade. É de tocar o coração. Sabe de uma coisa? Foi bom para mim ter recebido o convite para fazer a Zenilda. Deu oportunidade de pensar melhor o que acho a respeito da prostituição.
E qual foi a sua conclusão?
Renata - Acredito que existem inúmeros caminhos que levam uma mulher a se prostituir. Entre eles, o da vontade própria. No caso da novela, a Zenilda fala para as meninas que trabalham como quengas que elas têm um estigma e que, de fato, são vistas de modo diferente pela sociedade. Na verdade, creio que o meu personagem é representante de minorias sociais, como judeus, negros, homossexuais e quaisquer outros grupos que, de alguma forma, são vistos com preconceito.
Você acredita, então, que existem prostitutas por vocação?
Renata - As prostitutas estão associadas a todos os períodos históricos da humanidade. É óbvio que existem as mais variadas pressões e problemas que levam uma mulher a se prostituir. Mas acho, sinceramente, que muitas mulheres gostam da profissão e que consideram legal o que fazem. São mulheres que preferem ser prostitutas a ficar atrás de um balcão de roupas.
Você quer dizer que elas preferem vender o corpo a vender roupas?
Renata - Muitas preferem, sim. E não é uma escolha tão terrível assim, como a de matar alguém. Se você pensar bem, elas estão proporcionando prazer para terceiros. Logo, estão fazendo o bem.
Na novela, a Zenilda seria a combatente de uma moralidade tradicional?
Renata - Há uma confrontação na novela entre o que a Zenilda representa e as beatas. Elas são mulheres travadas, mal resolvidas, mas também o baluarte da sociedade greenvillense, que detém a tradição familiar e a propriedade. Estas mulheres são vistas como damas. Do lado da prostituição, estão as mulheres abertas e autênticas. A Altiva é muito mais perniciosa que a Zenilda, pois faz tudo por baixo dos panos. A Zenilda não é dissimulada. Isso ficou claro na cena da ponte, em que Zenilda e Altiva, cada uma de um lado de uma pinguela, não admitiam que a outra passasse antes para o outro lado. Acho que esta cena foi uma alegoria para os valores, que andam muito equivocados ultimamente. Outro dia, me falaram que, por causa da Aids, os heterossexuais desenvolveram uma raiva direcionada contra os homossexuais. Estão batendo nos gays em boates. Ora, se você não está fazendo mal a ninguém, pode ser o que bem entender na vida e ter liberdade de tudo.
É o seu personagem mais radical?
Renata - O que sei é que ela me permite mostrar um lado bem desvairado e bastante alto astral. Mas a Zenilda também tem seus conflitos, porque não é aceita pelas damas de Greenville. Ela nunca se casou, nunca foi mãe e nem tudo é lindo e maravilhoso para ela. Mas, com certeza, é um personagem que está me dando uma satisfação enorme.
Você ainda faz novelas hoje com a mesma paixão de quando começou, em 1970?
Renata - O diretor teatral Ulisses Cruz me disse, quando fiz a peça Encontrar-se, de Pirandello, há cinco anos, que eu parecia uma daquelas meninas iniciantes, que batem na madeira para dar sorte. Eu concordo e acho que isso se reflete também na tevê. Agora, não gosto de fazer qualquer bobagem. Gosto de interpretar papéis que possam, de alguma forma, modificar as pessoas. O que acredito que mudou mais neste tempo não é a paixão com a qual eu desenvolvo meu trabalho, mas a relação entre os colegas.
Os artistas hoje estão mais individualistas?
Renata - Hoje as pessoas, sejam elas artistas ou não, estão mais individualistas, sim. Não sei em que lugar elas desejam chegar. Talvez nem mesmo elas saibam. Tenho a impressão de que todo mundo quer matar um leão por dia. A vida é estressante hoje em dia e os homens continuam brigando por motivos que nem mesmo sabem direito.
Você despreza a competitividade?
Renata - Também tenho a minha parcela de competitividade, mas não é como, por exemplo, no filme Mephisto, em que um ator prefere ficar na Alemanha sendo o ator dos nazistas a ir para a França plantar batatas. Ele chega a vender a alma ao demônio.
Na sua opinião, existem artistas que, se pudessem, venderiam a alma pelo sucesso?
Renata - Acho que os artistas ainda são os caras de mais boa índole que existe. Tem gente que até pode ter vontade de vender a alma, sim. Mas, em geral, não tem no meio essa sacanagem que se vê no meio econômico, por exemplo.
Galeria heterodoxa
Com mais de 20 novelas no currículo, Renata Sorrah acabou ficando estigmatizada por interpretar personagens repletos de dramas. O mais contundente de todos eles foi o da alcoólatra Heleninha Roitmann, em Vale tudo, novela de Gilberto Braga. Perfeccionista, a atriz fez questão de frequentar várias reuniões da Associação dos Alcoólicos Anônimos (AAA), para entender de perto o problema acarretado por esta doença. Recebi muitas cartas de gente doente, dizendo que a Heleninha os estava encorajando, lembra Renata.
Mais recentemente, porém, a atriz começou a viver personagens com personalidades mais determinadas. Um deles foi a Pilar Batista, de Pedra sobre Pedra, também de Aguinaldo. Renata também marcou presença como a profissional liberal Natália Proença, em Pátria Minha, de Gilberto Braga. Nenhum destes personagens, no entanto, teve o appeal de Zenilda, a cafetina que luta pelos direitos de suas quengas, meninas que ela chama carinhosamente de camélias.
Para compor o visual de Zenilda a atriz não poupou esforços. Grava vestida com peles, mesmo nos dias quentes do verão carioca, e resolveu até mesmo transformar os cabelos lisos em frisados. Por conta disto, Renata tem de chegar uma hora mais cedo nos estúdios. A próxima novidade no look de Zenilda serão as perucas coloridas.
...e tudo começou nos bastidores


