EM DEFESA DA ARTE GENUÍNA
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de dezembro de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
O figurino e o cenário de uma montagem teatral devem estar equilibrados e em perfeita sintonia com o trabalhos dos atores, com o texto, com a mensagem e com a platéia. Pensando desta forma, o cenógrafo e figurinista Marcelo Marques esteve nesta semana no Sesc-PR, em Curitiba, orientando os coordenadores do projeto Identidade dos Palcos Martins Pena, que estão produzindo sete peças do dramaturgo brasileiro, com a intenção de montar grupos permanente de teatro em várias cidades paranaenses.
O figurino não uma brincadeira de moda. É um coadjuvante à narrativa. Em nenhuma hipótese deve desviar a atenção da platéia para signos que não possam ser imediatamente decodificados. Em cenografia não se usam elementos decorativos, mas criam-se elementos para possibilitar uma reflexão profunda, analisa o cenógrafo, que trabalha há cinco anos com o ator e diretor Sérgio Brito e com ele montou várias peças de Martins Pena.
Segundo ele, o mais importante na cenografia e figurino brasileiros é a busca da identidade de um povo. Cada pequena aldeia deve procurar a sua raiz, produzir uma arte genuína. A arte nunca foi alguma coisa padronizada. Nenhum dos grandes gênios copiou algo. Ao contrário, foram buscar nos seus ancestrais as vivências e experiências herdadas.
Falando de sua própria história, Marques conta que sua avó tinha um ateliê de costura e chapelaria. Os trabalhos manuais estão nas minhas veias. Faz parte da minha história familiar. Inclusive, uso o sobrenome dela, Marques. Ela era conhecida, no Rio de Janeiro, como a Madame Marques. Fazia cintos, acessórios e deixava florescer a criatividade.
Por isso, de acordo com ele, a globalização deve ser vista com cuidado. Ao mesmo tempo que traz informações de todos os pontos do planeta, confunde as pessoas e leva a um achatamento das artes, a um padrão facilmente copiado.
Esse é o grande equívoco de algumas pessoas que estão trabalhando com cenografia, atualmente. No início do século 19 estávamos ligados às nossas raízes. Hoje, compramos modelos externos. Não estamos indo atrás do que é genuinamente nosso, alerta.
A respeito de Martins Pena, Marcelo Marques orienta os coordenadores do projeto do Sesc para o lado jocoso e debochado da comédia brasileira. O que estamos fazendo é capacitá-los para que gerem seu próprio material artístico. Cada núcleo deve desenvolver sua personalidade artística, seu processo criativo, orienta.
As cores, o clima da época, a modelagem e a história não devem ser romantizados ou idealizados. Marques diz que tudo no cenário tem de ser real. Todas os períodos têm suas idiossincrasias e distorções históricas. Isso deve ser explorado, comenta. No século 18, em pleno ciclo do ouro, as mulheres passavam farinha de trigo no rosto como pó-de-arroz e costuravam toucinho de porco na barra da saia para atrair as moscas e não ficarem voando ao redor delas.
Para todo esse aparato, as cores são fundamentais. Marques utiliza o conhecimento da cor baseado nos estudos de Michael Pastore, diretor francês e professor da Universidade de Sorbone. Seguindo essa orientação, as cores são extremamente objetivas. Por exemplo, o vermelho para o sangue; o preto para a terra; o branco para o ar e a espiritualidade.
Para a comédia, Marques recomenda cores mais abertas, mais leves. Em Martins Pena temos de segurar a dramaticidade. Vou inclusive, sugerir uma oficina de reciclagem e outra de tingimento para que as pessoas possam usar a criatividade com o material que estiver disponível em suas cidades. O brasileiros são geniais na criação, na miscigenação e não na técnica. Devemos nos orgulhar do que temos e não ficar ressentidos de não ser como os outros.
Marcelo Marques trabalha no Rio de Janeiro e está concorrendo como melhor cenógrafo ao Prêmio Shell 2001 pela montagem da comédia Amante S.A, de Cirano Rosalem. Entre os trabalhos que estão sendo executados, Marques trabalha na montagem da Paixão de Cristo, do diretor de ópera Juarez Cabello, que será encenada em Volta Redonda (RJ), na Semana Santa. Para Curitiba, ele vem em março para o Festival de Teatro, com a peça Correndo nas Veias, de Tadeu Aguiar e Eduardo Baker.


