EM CRISE - Festival de Cinema pode ser cancelado
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quinta-feira, 08 de abril de 2004
Candice Dequech<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A oitava edição do Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba, programada para acontecer entre 22 e 26 de maio, corre o risco de ser cancelada. De um total de 380 trabalhos inscritos, apenas seis são de cineastas paranaenses. Como se não bastasse, há uma crise de patrocínio. O orçamento para a realização do evento neste ano ainda está só no papel. Nenhuma empresa paranaense se dispôs a bancar o festival, nem pública nem privada. A Companhia Paranaense de Energia (Copel), a grande patrocinadora do evento, já não contribui mais desde o ano passado.
''É uma vergonha para nós paranaenses termos apenas seis trabalhos locais, de um total de 380 trabalhos inscritos no festival. Falta patrocínio, esclarecimento por parte dos empresários e, principalmente, uma política pública definida e bem estruturada para o setor cinematográfico. É uma tristeza. Só tenho a lamentar'', disse Cloris Ferreira, organizadora do festival.
Ela disse que até o momento, apenas o governo do Estado ajudou o festival, cedendo o local para o evento. Segundo Cloris, foram feitos ainda contatos com estatais do governo federal como a Petrobras, Caixa Econômica Federal e os Correios. A resposta, no entanto, deve vir até o dia 20 de abril, um mês antes do festival. Até lá, apreensão e insegurança. Segundo ela, existe a esperança de a Petrobras contribuir. No ano passado, a estatal entrou com R$ 150 mil.
''Se a contribuição for a mesma este ano, já é suficiente. Realizamos o evento sem brilho e confetes'', avalia Cloris. O 8º Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba está orçado em R$ 300 mil. Cloris já avisa que se não conseguir o dinheiro todo, a programação ficará restrita às apresentações oficiais, sem a realização de seminários e sem o Prêmio Estímulo, que dá ao ganhador todos os recursos necessários para a produção de um novo filme, a ser apresentado na próxima edição do festival, bem como uma quantia em dinheiro.
Para o diretor de fotografia de cinema, o paulistano Marcelo Stomberg, a falta de verbas para o incentivo à produção cinematográfica é uma realidade comum no Brasil, e não uma peculiaridade paranaense. ''O patrocínio é um problemo sério na cultura. Em diversos festivais de cinema o problema ocorre. No último da Bahia, os participantes tiveram que pagar até o envio de suas fitas. A situação está crítica'', lamenta Stomberg, que deve presidir, pela primeira vez, a mesa de júri deste festival. ''O Paraná tem muito talento. É uma pena termos apenas seis trabalhos locais. A falta de patrocínio é um dos grandes culpados pela escassez de produção'', enumera Stomberg.
O cineasta curitibano Murilo Hauser, que deve participar do festival deste ano com o curta-metragem ''Já estamos todos mortos'', aponta a falta de patrocínio e de uma política pública clara para o setor cinematográfico como causa para a produção cada vez mais escassa e menos qualificada no Estado. ''O festival é um pouco desorganizado, mas está melhorando aos poucos, na medida do possível.'' Para ele, a baixa qualidade do material exibido no festival tem se acentuado cada vez mais, fruto de uma seleção fraca, que deixa a desejar. ''Não é incompetência, mas, quantidade não significa qualidade. A mesma coisa tem acontecido no Festival de Teatro de Curitiba. A eleição de um número elevado de trabalhos faz com que a qualidade caia, uma vez que cada artista dispõe de poucos recursos para a produção.''
Para o cineasta, também falta espaço para obras experimentais. ''Como em outros festivais, o estilo comercial tem se sobressaído, o que também acaba se tornando um desestímulo'', conta. Segundo Hauser, é necessário, no momento, uma seleção mais apurada dos filmes a serem exibidos, de preferência, com críticos de fora do Estado. ''Não pode continuar como está. Outra coisa que tem que mudar é a decisão que está nas mãos da iniciativa privada. É evidente que para as empresas patrocinadoras vale mais a pena investir em uma grande produção, com artistas e diretores renomados. Mas esses não precisam de patrocínio'', argumenta.
A falta de patrocínio refletiu-se diretamente na vida do cineasta curitibano Valdemir Milani, que foi o vencedor do Prêmio Estímulo do 6º Festival de Cinema, mas não pode concluir sua nova obra, intitulada ''Vovó vai ao Supermercado'', em um ano (prazo dado pelo festival para que a nova produção do premiado seja apresentada no festival seguinte). Milani conta que recebeu R$ 15 mil como patrocínio da Copel, que retirou o patrocínio logo em seguida em virtude da mudança de governo. ''Gastei até agora R$ 40 mil. Devo gastar ainda mais um pouco agora na fase de finalização. Mas, como amo o cinema, não liguei de usar recursos próprios. Espero, agora, conseguir patrocinadores para ser ressarcido'', conta o cinesta.
''Vovó vai ao Supermercado'', filme que deverá abrir o 8º Festival de Cinema, questiona os problemas sociais enfrentados pelos idosos no Brasil, e é baseado numa história real ocorrida em Curitiba em 1999, quando uma velhinha, indignada com a situação de desprezo e indiferença ao idoso, resolve quebrar as regras da boa conduta para chamar a atenção das pessoas. O filme é protagonizado pela primeira dama das Artes Cênicas do Paraná, a atriz Lala Schneider. No elenco, também estão artistas renomados da cena paranaense como o curitibano Emílio Pitta (ator do filme ''Os Normais'') e ainda Sinval Martins e Florival Gomes.
Neste ano, o requisito para a inscrição no 8º Festival de Cinema foi o envio de material em DVD, com exceção da categoria universitário. A partir de reflexões sobre questões tecnológicas, a organização do festival, junto com um conselho técnico, decidiu inserir em seu regulamento este quesito. Segundo Cloris Ferreira, a mudança já havia sido pensada na edição anterior, mas apenas esse ano a decisão foi colocada em prática. Para Cloris, a mudança reflete os avanços inadiáveis da indústria cinematográfica, como afirmou o cineasta Francis Ford Coppola em visita a Curitiba no ano passado, quando respondeu sobre o futuro do cinema e destacou as maravilhas do DVD.


