Em contato com o passado
Logo no início, a poucos metros da praia, as inscrições rupestres gravadas em algumas rochas impressionam e incitam a imaginação, levando-nos no tempo em busca dos antepassados ilhéus que insistiam em marcar sua presença e perpetuar sua cultura em rochedos costeiros. Precisar sobre causas e origens é tarefa árdua, em alguns aspectos impossível, de arqueólogos que há muito pesquisam rastros e incógnitas dessas comunidades de outrora.
Não se sabe a data de tais sítios, mas estima-se que ultrapasse os cinco mil anos. A ação da pedra sobre pedra, sem resíduos orgânicos, impossibilita a constatação da idade das marcas pelo carbono 14. Sob a proteção de um sombreador feito de cordas, artifício usado para aliviar a incidência e a intensidade dos raios solares, as inscrições apresentam linhas e formas exóticas que emocionam o visitante. Um começo distinto e enriquecedor desta jornada ecológica.
Ao ganhar um pouco de altura, após uma subidinha ótima para acordar o corpo percebemos novos e alucinantes ângulos da paisagem: o horizonte se eleva e a superfície azul do mar ganha dezenas de quilômetros. A deserta Ilha das Aranhas parece estar mais próxima e sua marcante presença lembra que em algum ponto de um passado remoto o morro que estamos explorando, também chamado das Aranhas, e o parceiro, Morro dos Ingleses, localizado na outra extremidade do Santinho, eram cercados por água. Isso mesmo: ilhas! O imponente resort, a praia, as dunas... Tudo lá embaixo estava submerso.
Aqui no morro, beirando as trilhas, bromélias e grandes rochas contrastam com o céu límpido e o mar sem fim. A vegetação que sobe a montanha é baixa, consiste de pequenos arbustos penteados pela constante ação do vento sul, predominante na região. Algumas curvas e pequenas escaladas em rocha depois, nos deparamos com um dos momentos mais intensos do trekking: o belíssimo visual da deserta Praia de Moçambique.
São 12 quilômetros de uma longa linha de areia delimitada pelo verde alto de uma floresta de pinhos, plantada de forma ignorante por antepassados mais recentes, no início do século XX. A área, atualmente, constitui o Parque do Rio Vermelho onde é proibida a construção de casas, contrariando a crescente exploração imobiliária em Florianópolis.
Graças à ausência do homem, visitantes ilustres, como baleias, golfinhos, pinguins e lobos marinhos aparecem, principalmente no inverno, e acentuam ainda mais a magia do passeio.
Chegando na praia, após uma hora e meia de caminhada, é hora de refrescar-se! A ordem é livrar-se dos calçados e entrar na água transparente e geladinha. Se não fossem as ondas, certamente os surfistas cederiam lugar aos mergulhadores. Cardumes de pequenos peixes circulam a poucos metros. Até os adultos brincam embalando-se nas ondas de jacaré (de peito). Vale lembrar que não é recomendado o banho ao lado das pedras. As correntezas e valas podem ser traiçoeiras. É só não passar da linha do umbigo.
O merecido banho parece planejado, o próximo trecho é de subida em terreno arenoso. As panturrilhas do publicitário paulista Roberto Dias, 40, marcaram presença! Vencida a ladeira, esta trilha, conhecida como Caminho das Aranhas, continua com areia fofa, indicando a proximidade das dunas, e a vegetação densa da restinga forma túneis acolhedores, aliviando-nos do sol implacável.
Buracos de lagartos e tatus escondem-se na beira da trilha e algumas plantas estranhas são distinguidas por Ciro: olho-de-cabra, sementes rubro negras, e as micro-orquídeas, apreciadas em alguns pontos de contenção paredes feitas de toras de madeira que tentam frear o avanço das dunas na trilha. Toda a limpeza e manutenção do caminho e do sítio arqueológico são feitas pelo hotel. No trecho final, surgem as singulares montanhas amarelas, um verdadeiro mar de areia. (A.B.)





