EM CENA COM VERA
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
O mês de outubro foi de descanso para o elenco da peça Gata em Teto de Zinco Quente, estrelada por Vera Fischer. Por esse motivo, no feriado do dia 12, encontrava-se na platéia de A Mais Forte, no Espaço Cênico dos Satyros, o ator curitibano Silvio Kaviski.
Qual a relação entre Vera e Kaviski? Elementar: os dois vivem os papéis principais do texto de Tennessee Williams, que vai fundo na sexualidade e na solidão humana. O atormentado Brick, ex-atleta, atualmente casado com uma bela mulher, mas que se afunda na bebida e mantém-se afastado da esposa (daí a razão do título), foi defendido até alguns meses atrás por Floriano Peixoto, namorado da atriz. Kaviski foi chamado para a substituição.
Há sete anos, quando o ator deixou Curitiba para trabalhar no Rio de Janeiro, apostou tudo o que havia conseguido até então algum espaço no meio teatral da cidade, a Faculdade de Artes Cênicas na PUC (faltava um ano para concluir o curso), e uma carreira que se desenhava promissora.
Mas se aqui havia o conforto da terra natal, com família e tudo, no bairro Campina do Siqueira, no Rio tinha a diretora e cineasta Tizuka Yamasaki prometendo-lhe um papel na novela Amazônia, da TV Manchete. Eles se conheciam desde o ano anterior, quando ela tinha dado um curso de interpretação e o rendimento do moço chamou sua atenção.
Silvio foi escalado para ser o Zé Guardinha, personagem engraçado que circulava pelas tramas do folhetim. No entanto, a produção da Manchete foi um fracasso, contrariando as expectativas que se baseavam no sucesso de Pantanal.
Kaviski não se deixou abalar. Entre uma peça e outra foi convidado para participar de O Germem da Discórdia, com Ricardo Blat, de quem se tornou amigo. A seguir fez o papel-título de A Viagem do Capitão Tornado, dirigido por André Paes Leme, um dos principais diretores da atualidade.
Num balanço geral desse ano de 92, a crítica do jornal O Dia citou o jovem ator como um dos cinco melhores que pisaram nos palcos cariocas. Enfim, para quem adotara a cidade, as perspectivas eram as melhores possíveis. Na Uni-Rio o moço concluiu o curso de teatro e por lá ficou. A lista de espetáculos dos quais participou é extensa. De montagens ambiciosas às mais simples, ele tem uma porção para dar como exemplo.
Ano passado, por exemplo, fez Segismundo em Vida É Sonho, com direção de Gabriel Villela. O personagem defendido por ele é o mesmo que coube a Regina Duarte na produção anterior. Kaviski conseguiu o papel principal através de teste, mas a conquista se deu de forma inusitada.
Justamente nos dias que antecederam a audição, o ator estava em São Paulo envolvido com outro teste. Chegou no Rio a tempo de ir ao teatro e confessar a Villela que não tinha decorado o texto. Sabia, unicamente, as quatro linhas da abertura do monólogo. Essas quatro linhas foram o suficiente para ganhar o papel e, consequentemente, as críticas elogiosas de Bárbara Heliodora, Maksen Luiz e Leonel Fischer, os principais colunistas da cidade.
O diretor Moacir Góes que em 93 assistira ao Capitão Tornado, viu a montagem de Vida É Sonho. Quando Floriano Peixoto falou da necessidade de deixar o elenco de Gata em Teto de Zinco Quente, o primeiro nome que Góes lembrou foi o de Kaviski. O dilema era a diferença de idade entre o ator e Vera Fischer, mas como ela aprovou a escolha, deu-se continuidade ao projeto.
Sua estréia na peça aconteceu em João Pessoa, praticamente sem ensaio. A princípio houve o receio de contracenar com o mito, ou os mitos, porque além de Vera ali estão também Ítalo Rossi e Ivone Hoffmann com quem já havia trabalhado, mas que sempre é um monstro no palco. Botei na cabeça que à minha volta estariam colegas de trabalho, e correu tudo bem, resume.
O ator comenta que Vera é uma pessoa muito doce e que o elenco de Gata em Teto de Zinco Quente o acolheu como se fosse um filho mais novo. A gente se trata exatamente como uma família, onde seus membros são pessoas muito carinhosas.





