EM CENA - Dança de sonhos e realizações
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terça-feira, 18 de novembro de 2003
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
Um espetáculo de encher os olhos e a alma. No palco, nada de dançarinos consagrados ou experientes, mas crianças e adolescentes de escolas de cinco bairros diferentes de Londrina integrantes do projeto ''Faces de Londrina'', que tem o apoio do Programa de Incentivo à Cultura (Promic). Com roupas desfiadas de jeans e alguns retalhos coloridos, os artistas deram um show durante uma hora. No início, era possível perceber mãos e pés trêmulos e sorrisos nervosos. Alguns minutos depois, a vergonha ficou de lado e os movimentos ágeis tomaram conta do espetáculo.
A primeira apresentação foi na Escola Tiradentes, na Vila Portuguesa (área central). Antes do espetáculo, Beatriz Nayara Alves dos Santos, 9 anos, já passava dando bom dia aos espectadores. Terminando a 3 série, a menina afirmou que nunca tinha feito aulas de dança antes. ''Eu dançava em casa todas as músicas e também samba'', relatou. Com semblante envergonhado, ela apontava que as próximas apresentações seriam melhores. ''Gostei muito da música que tem a brincadeira de bola'', destacou.
Juarez Joaquim da Paixão Neto, 6 anos, se destacava pelo pequeno tamanho comparado à maioria dos bailarinos e pelo constante sorriso maroto. Ele está na 1 série e falou que achou fácil as coreografias. ''Gostei dos ensaios. Foi legal'', disse timidamente.
Mais descoladas, as amigas Hellen Cris Santos, 12, e Tatiana Ketyn, 13, contaram que costumavam se reunir na casa de Tatiana para ensaiar com a intenção de formar um grupo. Tempos depois, elas ficaram sabendo que ia ter um grupo de dança na escola e se uniram a ele. ''Quando comecei a ensaiar é que fui acreditar que estava dançando. É um sonho'', revelou Hellen entusiasmada. Já Tatiana confessou certa ansiedade antes da apresentação. ''Foi bom mas fiquei um pouquinho nervosa. Depois do início, a gente se soltou'', detalhou.
Marinheiras de primeira viagem, Caroline Naiara de Faria, 8, e Ana Carolina Marcondes, 7, confessaram que também ficaram nervosas mas adoraram a experiência. ''Gostei de toda a apresentação'', disse Caroline. Ana Carolina nunca tinha dançado em público mas contou que em casa costuma se divertir ao som do grupo Rouge.
A experiência também foi inesquecível para Isadora de Almeida, 10 anos. ''Eu amei! Durante os ensaios era muito bom porque o pessoal brincava com a gente'', lembrou. Naja Franco, 11, disse que foi tudo muito gostoso mas revelou: ''Fiquei com vergonha quando estourou a alça do vestido e eu tive que arrumar''.
Ronivaldo Gomes da Silva, 16, já tinha participado de uma apresentação no ano passado e mostrou segurança durante o espetáculo. ''Eu me apaixonei e gosto muito de balé. Rolaram vários desafios e preconceitos mas eu estou construindo o meu futuro e não o das pessoas'', relatou. Ronivaldo disse ainda que pretende concorrer a uma bolsa pela Funcart no próximo ano e quer ser um bailarino profissional.
Uma das responsáveis pelo projeto é Carina Corte, que junto com outros quatro integrantes preparou a turma para a apresentação. Ela contou que o projeto começou em maio e que passaram cerca de 120 crianças e adolescentes de 6 a 20 anos por ele. O espetáculo teve a participação de 67 crianças vindas do Jardim Santa Fé (Zona Leste), Vila Portuguesa (área central), Conjunto João Paz e Maria Cecília (Zona Norte) e Jardim Franciscato (Zona Sul).
Carina é coordenadora da dança da Rede da Cidadania e contou que as crianças sempre queriam ir para o palco, por isso foi desenvolvido o espetáculo. ''A vontade deles é tão grande que mesmo quando o movimento é difícil, para eles se torna fácil'', observou a coreógrafa.
O espetáculo foi montado em cima dos sonhos e medos dos integrantes. Carina contou que trabalhou com as crianças esses temas e que o maior medo de todos era que a mãe morresse. Depois, vinham situações como medo de levar tiro, usar drogas ou ficar abandonado. Entre os sonhos, estava a vontade de ver os pais felizes e de ter amigos para conversar. Passada essa fase, Carina trabalhou com os dançarinos que tipo de movimento simbolizava os sonhos e medos relatados por eles e tudo foi sendo usado para montar as coreografias do espetáculo. Para o ano que vem, ela adiantou que pretende desenvolver as coreografias baseadas na história dos bairros onde as crianças e adolescentes moram, mas para isso é preciso novamente solicitar o apoio do Promic.


