Em cartaz em Londrina, um blockbuster nas estrelas
Ambientado no frio vazio do espaço, filme transmite uma sensação de aconchego e mantém um tom levemente cômico
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de março de 2026
Ambientado no frio vazio do espaço, filme transmite uma sensação de aconchego e mantém um tom levemente cômico
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Há uma década, Ridley Scott lançou “Perdido em Marte”. O filme foi um sucesso inesperado: uma aventura de ficção científica satisfatoriamente inteligente, na qual o astronauta perdido interpretado por Matt Damon consegue sobreviver em um planeta hostil alimentando-se exclusivamente de batatas cultivadas em fezes.
Onze anos depois, a mesma dupla que adaptou o material daquele filme se reuniu para adaptar outro livro de Andy Weir, “Project Hail Mary”. Assim como o filme anterior, é outra história sobre um cientista sozinho no espaço, forçado a usar seu considerável intelecto científico para improvisar uma saída para uma tremenda enrascada épica. E assim como “Perdido em Marte!”, este “Devoradores de Estrelas” , título brasileiro desta segunda adaptação de livro de Wier (“Projeto Ave Maria”) que estreia hoje em Londrina, é uma obra espirituosa, inteligente e absurdamente divertida.
Começamos com Ryland Grace (Ryan Gosling, em puro modo astro de cinema) acordando de um coma, sozinho em uma nave espacial, com cabelo de homem das cavernas e um grave caso de amnésia. Olhando pela janela, ele percebe que está "a vários anos-luz do meu apartamento". Uma dupla história de detetive se desenrola: em uma das linhas narrativas, o personagem desvenda gradualmente o mistério de sua própria identidade, como um Jason Bourne para nerds, enquanto a história de sua vida como um gentil professor do ensino fundamental é revelada lentamente em flashbacks elípticos.
A partir daí, vai se armando uma trama estupidamente divertida sobre conceitos especulativos realmente inteligentes. Depois, há outro mistério muito maior a ser resolvido: o Sol está morrendo, sua energia sendo lentamente consumida por minúsculas bactérias extraterrestres conhecidas como astrófagos. O problema, Ryland admite a seus alunos, não é grande coisa, mas sim um "problema de pequena a média magnitude" – algo que poderia resfriar a Terra, desencadeando um evento de extinção em massa. Assim, o Projeto titular é lançado em última tentativa intergovernamental, na esperança de encontrar respostas na única estrela da galáxia que parece resistir ao astrófago parasita. O cientista é enviado para lá para encontrar uma cura; e prepare-se para o mesmo tipo de resolução científica que tornou “Perdido em Marte” tão satisfatório.
Enquanto o astronauta de Matt Damon se comunicava regularmente com a Terra, as mensagens enviadas desta nave Hail Mary para casa levam 11 anos para chegar ao planeta natal. Ryland só consegue gravar diários em vídeo, cheios de alegria. Mas ele não estará mais sozinho: por volta da metade do filme, somos apresentados a uma criatura alienígena feita de pedras, semelhante a uma aranha, de outro canto do Universo chamada Rocky, cujo planeta natal também está ameaçado. Eles concordam (é um buddy movie, com certeza) em se unir – a barreira linguística, que levou um filme inteiro para ser superada em “A Chegada” (aquela bela FC de 2016) aqui é rapidamente vencida com um laptop – na tentativa final para impedir o apocalipse coletivo.

ACONCHEGO NO ESPAÇO
É mérito do talento de Ryan Gosling e da equipe por trás do extraterrestre (incluindo o marionetista James Ortiz) que este filme – que por longos trechos ininterruptos apresenta apenas um personagem humano – pareça tão vivo.
Ambientado no frio vazio do espaço profundo, ele sempre transmite uma sensação de aconchego na parceria e guarda alguma semelhança com as probabilidades impossíveis de “Interestelar”; mas, ao contrário da obra homérica e sublime de Christopher Nolan, o roteiro e a direção da esperta dupla Phil Lord e Chris Miller mantêm um tom levemente cômico, com a
atuação inquieta e carismática de Gosling (“falo demais, esse é o meu problema", admite Ryland) sendo uma presença sempre efervescente. Sua formação como professor de ciências ajuda a explicar conceitos complexos de uma maneira acessível ao público: os astrófagos, por exemplo, consomem luz para aumentar sua velocidade – ou, como o professor coloca, "eles buzinam para correr".
Apenas em alguns momentos parece que Gosling é simplesmente deixado à própria sorte, apoiado em seu considerável charme. A gravidade e a importância da missão nunca são questionadas, e os diretores permitem momentos de genuína graça e sinceridade — você vai até se emocionar com um alienígena sem rosto. Mas nem todas as piadas funcionam, e o filme também é um pouquinho longo, passando de duas horas e meia. Mas “Devoradores de Estrelas afinal é uma estimulante opção de muito


