Embora não corresponda à realidade retratada no filme, ''Deus é brasileiro'', de Cacá Diegues, cuja estréia, em âmbito nacional, ocorreu no começo deste mês, é um título chamativo, que cumpre seu papel de atrair público para o cinema. O recurso comercialmente esperto, contudo, não compromete em nada o prazer de assisti-lo e de se divertir muito com a história do ''Todo Poderoso'' que vem ao Brasil à procura de alguém, um ''santo'', capaz de substituí-lo, na administração de suas amplas e desgastantes tarefas com a humanidade, enquanto passeia pelas galáxias num inusitado roteiro de férias. Escolheu o Brasil para sua busca apenas porque aqui, segundo explica, viceja uma profunda religiosidade.
Mas quem passeia, na verdade, são os espectadores, por paisagens deslumbrantes de um Brasil pouco conhecido, escondido no interior e no litoral dos estados de Pernambuco, Alagoas e Tocantins. Divertem-se também com o duelo de interpretações. De um lado, Antônio Fagundes, no papel de ''Deus'', e que empresta ao personagem - ''aquele que não pode ser nomeado'' - um ar de amoroso distanciamento, além de um charme que valoriza a concepção profana do divino. Do outro, na pele do pescador Taoca, um interiorano moderninho - que vê no apoio à busca de Deus uma oportunidade de tirar alguma vantagem pessoal - o ainda pouco conhecido ator Wagner Moura surpreende, pela jocosa naturalidade da interpretação, o ponto certo para um personagem que só acredita naquilo que lhe convém. Já no papel da triste Madá, que se une à dupla, buscando seu próprio caminho, Paloma Duarte encanta com sua beleza despojada e interpretação contida, porém plena de consistência.
Fotografia primorosa, assinada por Affonso Beato; tomadas de cenas originais e belíssimas, com destaque para a última sequência, num barco sob o luar, embalado pela ''Melodia Imortal'', de Villa-Lobos, na voz de Djavan; e roteiro leve e bem-humorado, que contou com a colaboração do escritor João Ubaldo Ribeiro, autor do conto inspirador da história mostrada nas telas, fazem de ''Deus é brasileiro'' um filme extremamente agradável de assistir. Pena que as muitas possibilidades - filosóficas, sociais, religiosas - abertas pela boa idéia de propor um encontro de Deus com a humanidade, sua criação, não sejam, em nenhum momento, aprofundadas. É como se, em vez de uma cerveja bem gelada ou um vinho encorpado, nos fosse oferecido apenas um copo d'água. Contudo, há de se convir que, em alguns momentos, um copo de água fresca é tudo o que se pode desejar.
Serviço: O filme ''Deus é brasileiro'' está em cartaz em várias salas do Paraná. Confira a programação de cinema na página 2.

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