Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A formação dos instrumentistas é o principal objetivo do Festival de Mú sica de Câmara de Curitiba que conta com 22 grupos participantes e seis concertos com artistas nacionais e internacionais. Todas as apresentaçõ es são gratuitas
A música de câmara, que tem suas raízes na época renascentista, tem compositores contemporâneos, dando novas cores e roupagens para a arte. Essa variedade estará presente no Festival de Música de Câmara de Curitiba, em cartaz no Teatro Fernanda Montenegro. Esta é a parte voltada ao público, como uma vitrine dos artistas, porque nos bastidores estarão acontecendo aulas aos participantes.
Para a idealizadora e realizadora do evento, Cloris de Souza Ferreira, o mais importante é dar formação aos instrumentistas. ‘‘A base e a formação são essenciais. Depois da pessoa formada, não dá para fazer mais nada’’, diz a promotora. O mesmo discurso a acompanha desde os festivais de música de Londrina e de Cascavel. ‘‘O Festival de Música de Câmara é um incentivo ao jovem músico que, por natureza, tem um espírito inovador’’.
Em razão disso, avisa, é que o evento está aberto gratuitamente a todos os conjuntos interessados. Os estudantes de maior talento concorrerão à bolsas de estudos no exterior e apresentações em duas importantes salas de concertos nacionais: a Villa-Lobos e a Cecília Meireles, ambas do Rio de Janeiro.
Cerca de 22 grupos estão inscritos, a maioria vinda de fora – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campinas. Parte desse pessoal está hospedada nas casas de amigos e parentes, e o restante conta com alojamento, também gratuito, no Albergue da Juventude.
‘‘Estranhei a falta de representantes gaúchos e catarinenses. Mantivemos contatos com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e com a Orquestra Sinfônica de Santa Catarina, porque entre seus integrantes muitos são professores de música. E não vieram alunos desses Estados’’, comentou Cloris.
A comissão julgadora é formada pelos membros do conselho artístico: a pianista Maria Teresa Madeira (na TV dublou Regina Duarte na série ‘‘Chiquinha Gonzaga’’), Elione Medeiros, fagotista do Trio Uni-Rio e Radegundes Feitosa, trombonista do Quinteto Brassil. O presidente do júri é Ronaldo Miranda, compositor e pianista e presidente da Sala Cecília Meireles.
Os grupos candidatos aos prêmios terão que obrigatoriamente se apresentarem nos concertos das 11h30. Além de ser uma oportunidade de subir ao palco – rara entre os jovens artistas –, esta sessão funciona também para o júri avaliar os melhores.
O programa noturno do Teatro Fernanda Montenegro terá somente grupos convidados. Eles tocam às 21 horas e retornam ao palco no dia seguinte, às 15 horas, para um master class. O grupo de percussão Samedi, que participa da abertura do encontro, é um caso à parte – receberá até 30 alunos, desde que os interessados se inscrevam antecipadamente. Estes devem levar seus próprios instrumentos.
Ensino doente - Cloris, que também é professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, e a responsável pelo Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba, afirma que o ensino musical curitibano ‘‘está doente’’. Para ela há necessidade urgente de ‘‘cuidados especiais, melhor elaboração de material humano, possibilidades dentro das escolas de renovação e, especialmente, oportunidade ao aluno de se apresentar ao público’’.
A falta de incentivo ao estudante deve-se a essa situação doentia, porque os espaços são muitos onde os instrumentistas podem atuar. A música tem o poder de beneficiar socialmente, há estudos científicos que provam seus benefícios, mas não existem projetos culturais nesse sentido.
‘‘O sistema penitenciário, por exemplo, só vai se recuperar através das artes’’, defende Cloris. ‘‘O ser humano tem que se encontrar dentro de si, e para isso tem que identificar o lado bom. A arte é essa coisa boa em que você se identifica. Todas as pessoas são boas e más, tem-se que analisar e descobrir o que há de bom para ela se descobrir e amar’’.
Devido ao aspecto social é que o evento oferece não só os cursos como os concertos gratuitamente. ‘‘Eu queria ele muito maior, mas preferi um acontecimento que fosse mais consistente e gratuito. E vou levá-lo à rua’’, afirma. Será no próximo sábado, pela manhã, na Boca Maldita. Professores, alunos e todos aqueles que quiserem tocar, terão vez. É uma forma de levar a música a um público mais amplo.
A primeira edição do Festival de Música de Câmara tem como homenageada a pianista Henriqueta Garcez Duarte. ‘‘Devo a ela esse espírito de luta para que a música possa desempenhar o seu papel’’, finaliza.

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