Em cartaz, ' Sing Sing' traz a arte, para sobreviver
Colman Domingo, único ator negro presente na lista do Oscar, tem uma interpretação incrível no drama carcerário
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
Colman Domingo, único ator negro presente na lista do Oscar, tem uma interpretação incrível no drama carcerário
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Este ano de Oscar parecia, até agora, quase inteiramente dominado pelo trabalho de atrizes. Somente Ralph Fiennes (“Conclave”), pelo menos em salas brasileiras, tinha dado as caras justificando com bravura sua indicação. Falta conferir Adrian Brody (“O Brutalista”), Timothée Chalamet (“Um Completo Desconhecido”) e Sebastian Stan (“O Aprendiz”), todos com lançamento previsto por aqui até 27 de fevereiro. Enquanto aguarda, o espectador pode e deve conhecer o trabalho incrível do único ator negro presente à lista de 2025, e o quinto nominado nesta safra – é até peculiar, porque o filme é de 2023.
Estreia nesta quinta-feira (13) no país (também em Londrina) “Sing Sing”, um drama carcerário. É pouca, é rasa, é lugar comum esta definição de gênero ? Se acha isso pobre, se vc, espectador, acha que merece mais, então compre seu ingresso e pague para ver. “Sing Sing” ilumina com um raio de esperança um grupo de presos que só podem sonhar com a possibilidade de voltarem a ver a luz do sol se for através de algumas grades, do pátio ou de uma janelinha numa parte da prisão de onde contemplam a rotina inefável do passar dos dias.
E faz com que suas vidas tenham sentido, mas também faz com que seu cotidiano os frustre ainda mais quando a cortina cai e eles percebem que por trás de seus personagens, de seus figurinos e de seu roteiro maluco cheio de viagens no tempo, humor e até Freddy Krueger só existe realmente escapismo puro e simples. E no fundo, o que é mais humano do que o mero escapismo?
Mas o diretor Greg Kwedar não quer que você confie nele. Afinal, “Sing Sing” é uma prisão de segurança máxima com controles aleatórios, sirenes que te obrigam a deitar no chão e praticamente distorcem seu corpo a limites insuspeitados para provar que você não fez nada, sofrimento, morte, desejo de liberdade e julgamentos rápidos e injustos onde nem mesmo os mais inocentes conseguem provar. Não é que os seus prisioneiros façam teatro por simples prazer artístico: é uma necessidade básica lembrar que não são apenas números que podem ser revistados, maltratados e espancados. Que, atrás das grades, tem gente. E é aí que “Sing Sing” consegue se tornar grande e montar um drama espetacular que funciona, emociona e deixa escapar mais do que algumas lágrimas.
Tendemos a subestimar o poder da arte, sem levar em conta que a vida, sem criações que sejam capazes de nos mover interiormente, de nos compreender a nós mesmos e aos outros, de nos divertir e nos emocionar, não faria muito sentido. A arte, entendida de forma subjetiva, é vital para sobreviver num dia a dia cheio de rotina, repetição e tédio. É o que dá cor ao clássico “trabalhar, comer, dormir” do capitalismo. E é por isso que “Sing Sing” é tão poderoso: porque sabe colocar o coração exatamente onde, no fundo, todos nós o temos.
Este não é um filme sobre o prazer de consumir, mas de criar com os amigos. É exatamente disso que os presos da prisão de segurança máxima de Sing Sing precisam: colocar-se, por alguns minutos, no lugar do outro.
Há atores maravilhosos no filme. Todos dignos de aplausos e tudo o mais. No entanto o verdadeiro instrumento que constrói e sustenta a extensa coleção de acertos que é “Sing Sing” é Colman Domingo, possivelmente uma dos protagonistas mais complexos que chegaram às telas nos últimos anos.


