A organização do Festival de Cannes deixou para o final da mostra a projeção de ''O Imaginário do Dr. Parnassus'', a mais recente extravagância do ex-Monty Python Terry Gilliam. A idéia da paginação foi com certeza arejar uma programação rarefeita pelo realismo.
O filme é uma alucinante viagem feita daquele material onírico e ilimitado que habita a imaginação de Gilliam, usina criadora dos mais velhos ''Os Viajantes do Tempo'', ''O Pescador de Ilusões'', ''Brazil'' e do mais recente ''Os Irmãos Grimm'' - necessária qualquer outra apresentação ? Neste ''Dr. Parnasus'' ele não alterou sua linha de montagem nos domínios do fantástico, e conta uma nova aventura, desta feita a do personagem-título (Christopher Plummer) para salvar a filha do pacto que ele fez com o diabo, a fim de garantir juventude pela eternidade afora.
A realização, como se trata de um Gilliam legitimamente envelhecido em tonéis do mais estapafúrdio universo de licenças poéticas, tem lá seus excessos de quem filma o que sonha, e vez ou outra beira o insuportável, dada a multiplicação de efeitos e trucagens. Mas em boa parte vale não somente por bons e divertidos momentos, mas pela derradeira presença de Heath Ledger no papel de um trapaceiro perseguido pela máfia russa (o argumento se passa na Londres dos dias de hoje).
As filmagens foram bruscamente interrompidas pela morte inesperada do ator, em janeiro de 2008. Gilliam teve então a idéia de reescrever parte do roteiro e chamar alguns atores para interpretar o papel de Ledger, sem no entanto eliminar o que já tinha sido filmado com ele. Foi quando entraram na produção Johnny Depp, Jude Law e Collin Farrell, que viram aí uma ótima e muito carinhosa oportunidade de homenagear o colega e amigo.
Um título que nas últimas horas cresceu na avaliação à premiação é o do austríaco ''Das Weisse Band'', de Michael Haneke. Um original estudo sobre as consequências do poder absoluto que asfixia as pessoas e gera reações imprevisíveis - aqui crianças que se transformam em seres punitivos, a obra ficou na cabeça de todos pela riqueza de questões que provoca. E se a função da arte é semear dúvidas e provocar indagações (e não respostas), então o filme é desde já o mais instigante desta seleção.
Amanhã é dia de conhecer os melhores deste ano. Isto é, os ganhadores, segundo o júri oficial. O que nem sempre quer dizer os melhores...

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