Em busca dos grandes peixes do Rio Paraná
AVENTURA EM AYOLAS
Em busca dos grandes
peixes do Rio Paraná
fotos: Aurélio Carlos AlbanoNO RIO Com o tempo fechado, as águas do Paranazão ganham um belo tom prateado: muito frio até chegar aos pontos de pesca indicados pelos guiasO piloteiro Ramon, com piapara de quatro quilos fisgada pela equipe da Folha: o segundo maior peixe da pescaria
Aurélio Carlos Albano
Enviado ao Paraguai
Cidade tem fama mundial de concentrar os maiores exemplares do Paranazão. A razão disso é que, em 700 quilômetros não há nenhuma barreira natural ou artificial no rio
O dia amanheceu nublado naquela quinta-feira de final de julho, com a temperatura por volta dos 8 graus, prometendo frio e chuva. A manhã encoberta pelas nuvens dava um marcante tom prateado na paisagem das belas águas do Paranazão. Para uma pescaria, a primeira impressão frustrava um pouco a expectativa dos dias que antecederam a preparação de uma aventura tão esperada. Nada que diminuísse, entretanto, a satisfação de conhecer um dos lugares mais promissores do mundo em matéria de grandes peixes.
Estávamos em Ayolas, pequena cidade ao Sudoeste do Paraguai e às margens do Rio Paraná, na fronteira com a Argentina, a 450 quilômetros de Foz do Iguaçu. Nosso grupo de 13 pessoas havia saído de Londrina no dia anterior por volta das 13h30 e era formado por sete pescadores do Paraná, Rio Grande do Sul e interior de São Paulo, além de quatro pessoas encarregadas de organizar a viagem e dois jornalistas. com a dura tarefa de descrever e fotografar uma pescaria de três dias.
Desembarcamos em Ayolas às 3 horas da madrugada. Descansamos um pouco no hotel enquanto os organizadores trabalhavam na preparação de barcos, iscas, piloteiros, comida, água e refrigerantes para um dia inteiro de pescaria. Assim, mais ou menos por volta das 6h30 da manhã já estávamos a caminho dos pontos de pesca indicados pelo experientes guias paraguaios.
O primeiro ponto de parada ficava a cerca de 45 minutos de barco a partir do hotel, cerca de 35 quilômetros rio abaixo. Durante o percurso, o frio entrou intenso, já que a temperatura caía muito a bordo da voadeira - confortável lancha de fibra de 12 pés, impulsionada por motores de 55 HP - navegando a cerca de 45 km/h. No ponto de pesca determinado, conhecido como Bóia 6, apoitamos a lancha ao lado de outras que já estavam no local. Finalmente era hora de começar a pescar.
Apesar da fama mundial que Ayolas tem de proporcionar a captura de grandes dourados e pintados, nosso objetivo eram as piaparas, peixes não tão grandes mas conhecidos pelas brigas emocionantes que proporcionam se a pescaria for feita com material leve. E os exemplares, ali, atingem tamanho excepcional, muito difícies de serem encontrados no Brasil.
A fama de Ayolas pela concentração dos maiores exemplares do Paranazão têm uma razão: em 700 quilômetros, não há nenhuma barreira artificial no rio. A primeira desde a Bacia do Prata, em Buenos Aires, subindo o rio, é a da Hidrelétrica de Yaciretá, binacional de 20 turbinas entre Paraguai e Argentina localizada em Ayolas.
Subindo o rio, os peixes têm a alternativa de ir em direção do Pantanal brasileiro ou Ayolas; se tomarem o segundo caminho, encontram Yaciretá e têm que voltar, o que assegura passagem obrigatória duas vezes diante de Ayolas - na ida e na volta. Nos 700 quilômetros entre Paraguai e Argentina, o Paranazão impera em sua cava original.
Usando como isca minhoca, milho ou filé de curimba, lançamos as linhas. Com o barco parado e a manhã avançando, o frio não incomodava mais. Assim, não demorou muito para a primeira ação do dia. Depois de dois ou três toques na linha, a piapara dá uma corrida e, se não houver a fisgada no tempo certo, ela foge levando a isca. Embarcamos, então, uma piapara de menos de 40 centímetros, fora de medida, e que foi devolvida ao rio. A soltura é necessária para garantir a procriacão dos peixes.
Outros exemplares foram fisgados e soltos, o que frustrava um pouco a expectativa de grande produtividade. Nos barcos ao lado, entretanto, os resultados eram bem melhores. Como as duas grandes virtudes do pescador são a paciência e a esperança, continuamos a pescaria. Tarefa, inclusive, nem um pouco desagradável, já que a beleza da paisagem, com a imponência do Paranazão e a exuberância da mata nas margens nos transmitia uma paz que compensava qualquer ausência de peixes.
Não demorou muito para nova fisgada. O peixe tomava linha da carretilha, vergando a vara até o limite. Depois de uma briga brava a linha afrouxou. Nossa linha havia cruzado com a linha de outro pescador e se partiu. Como sempre acontece, o maior peixe conseguiu fugir. Depois dessa, resolvemos tentar em outros locais, subindo o rio. Conseguimos outras ações à tarde, mas nenhuma que merecesse registro. O show ficou por conta de uma bando de macacos-prego que se aproximou da margem, uns sete ou oito, cada um no seu galho.
Em nosso barco, o dia foi salvo pelo competente piloteiro Ramon Espínola, um argentino de 36 anos, que fala guarani, radicado em Ayolas desde os dez e conhece como ninguém o lugar e as manhas das piaparas paraguaias. Ele conseguiu embarcar vários exemplares entre dois e três quilos.
Ramon vive no rio, gosta do que faz. Como pescador profissional, há dois anos conseguiu embarcar um pintado de 72 quilos! E pego pelo rabo com isca artificial! Parece conversa de pescador, mas fotos tiradas em Ayolas comprovam a existência de exemplares desse tamanho.
Nessas águas, há muitos registros também de dourados acima do 15 quilos pacus gigantes e piracanjubas avantajadas. Como definiu Ramon em guarani: Hetaui pirá, que quer dizer tem muito peixe em Ayolas.
Voltamos para o hotel por volta das 18 horas, onde encontramos os outros pescadores. Para a maioria, o dia tinha sido muito produtivo. O gaúcho Luis Mário, que mora em Curitiba, e que se revelaria o melhor pescador - ou mais sortudo - conseguiu embarcar cerca de 30 exemplares de até 3,5 quilos. Depois do jantar, todos foram dormir para o outro dia de pescaria.
Para a equipe da Folha, o segundo dia foi de trabalho. Fomos conhecer a cidade de Ayolas para entrevistas e fotos, visitamos o zoológico mantido pela Usina de Yaciretá, com espécies da fauna nativa e conhecemos as missões jesuíticas que ficam a uns 60 quilômetros da cidade.
Na volta, no fim da tarde, reunimo-nos novamente com os pescadores. O frio havia diminuído bastante, o sol apareceu e a pescaria garantiu bons exemplares para todos, com algumas histórias duvidosas contadas no jantar. Uma delas do paulista Athos, da cidade de Cândido Mota, pescador veterano e inveterado que jurava ter embarcado uma piapara com dois anzóis na boca: um seu e outro do seu companheiro de barco, o Toninho Dentista. Ou seja, ela mordeu uma isca e correu para morder outra, sendo duplamente fisgada como castigo para tanto apetite. Seu companheiro, que não lhe deixou mentir sozinho, garantia que era verdade.
Em nosso segundo dia de pesca - o terceiro da viagem - fomos para o rio com esperança de mais sucesso - o que foi confirmado assim que apoitamos o barco num lugar conhecido como Ilha Negra. Logo após o primeiro lançamento, a linha correu e a vara vergou. O peixe tomava muita linha, deixando a expectativa de ser um grande exemplar e o temor de que conseguisse fugir. Depois de alguns minutos de briga conseguimos embarcar uma grande piapara de quase quatro quilos. Só por isso a viagem a Ayolas já teria valido. A sensação de brigar com uma piapara dessa, na correnteza forte e com material leve, é indescritível.
Mas o restante do dia foi fraco. O piloteiro Ramon definiu em guarani: Naipori pira, ou não tem peixe. Por falta de sorte ou de habilidade, não conseguimos embarcar mais nenhum bom peixe. Novamente foi Ramon quem conseguiu salvar o dia, com vários exemplares acima de três quilos.
De volta ao hotel, reunimo-nos novamente com o grupo. O destaque mais uma vez havia sido o gaúcho Luis Mário, com mais de 30 exemplares fisgados, inclusive o maior da pescaria, com mais de 4,5 quilos. Estava na hora de retornar. Contrastando com a primeira manhã prateada pelas nuvens, o último fim de tarde em Ayolas nos reservou um pôr-do-sol que tingiu de laranja as águas do Paranazão, num espetáculo que marcou como a imagem mais forte do lugar.
Depois do jantar os peixes foram repartidos, o que rendeu um isopor grande cheio para cada pescador. Para a equipe da Folha, apesar dos poucos exemplares fisgados, ficou a satisfação pelos bons resultados do grupo e por termos conseguido o segundo maior peixe da pescaria. Um feito e tanto para quem nunca tinha pescado em Ayolas e, afinal de contas, o motivo por estarmos lá. Embarcamos já pensando em quando poderíamos voltar.
A equipe da Folha viajou a Ayolas a convite da Continental Tur, agência de turismo em Londrina
Entardecer no Rio Paraná- Como chegar
De avião: para Assunção, algumas empresas têm vôos regulares. De lá, deve se seguir de carro para Ayolas, num trecho de 300 quilômetros. De carro: deve-se ir até Foz do Iguaçu, passar por Ciudad del Este e seguir na direção de Encarnación, até Ayolas. São 450 quilômetros a partir de Foz.
- Onde ficar
Em Ayolas, o Hotel Ayolas fica às margens do Rio Paraná e oferece toda a infra-estrutura ao pescador, incluindo refeições, barcos, iscas e piloteiros. É preciso levar o material de pesca. A Continental Tur oferece pacotes com saídas a partir de Londrina três vezes por mês. Telefone: 0**43/324-3218.
- Material de pesca
O material utilizado em Ayolas na pesca de piaparas é composto por varas de ação média - entre 8 e 20 libras - molinetes ou carretilhas (preferidas por quem conhece o lugar) com linhas de até 0,35 milímetros, chumbadas entre 20 e 50 gramas e anzóis Kawasemi 05 e 06 ou Maruzeigo 14 a 16, atados à linha principal por chicotes de até 1,2 metro e giradores pequenos. A chumbada deve ficar livre na linha principal, antes do girador. Para pintados e dourados, o material deve ser médio-pesado, com linhas de 0,40 a 0,60 milímetro em varas de até 60 libras. Utiliza-se anzóis 7/0 e 8/0.
- Como pescar
Para os mais experientes, o sistema utilizado na pescaria de piaparas em Ayolas é o de rodadinha, que se faz soltando o anzol rente ao barco até que a chumbada toque no fundo. Depois, levanta-se um pouco a vara, puxando linha e soltando novamente para que a corredeira leve a isca, atento para a sutil mordida da piapara. Outra alternativa, mais simples mas não tão produtiva, são os arremessos bem longe do barco. Para a pesca de dourados e pintados utiliza-se iscas naturais, como tuviras, ou artificiais.
- Respeito à natureza
Os peixes fisgados abaixo da medida devem ser liberados porque ainda não fizeram nenhuma desova. No caso da piapara, esta medida mínima é de 40 centímetros. É preciso se informar sobre as medidas dos outros peixes. Devolvendo o exemplar pequeno ao rio é possível diminuir o prejuízo ao meio ambiente e permitir que haja abundância para as próximas pescarias e para as gerações futuras. É uma questão de consciência ecológica que, infelizmente, ainda não faz parte das atitudes das grande maioria dos pescadores. E é por isso que não se encontram mais tantos peixes como antes em muitos rios brasileiros, esgotados pela pesca predatória e indiscriminada.
- Dicas importantes
É preciso levar guaranis, porque em Ayolas os comerciantes não gostam de dólares nem reais. No inverno, é preciso levar roupas pesadas de frio, com luvas e gorros de lã, além de uma capa de chuva reforçada.





