Alessandro SantosMaximianno Cobra: ‘‘Ainda mais incrível são os erros que às vezes chegam ao limite da paródia’’As sinfonias de Beethoven que se ouvem ao redor do mundo seriam realmente as composições feitas por um dos gênios da música clássica, falecido há 170 anos? O resultado de um estudo rigoroso que vem sendo desenvolvido há cinco anos pelo maestro brasileiro Maximianno Cobra, como tese de doutorado na Universidade de Sorbonne, pode provar o contrário.
O maestro de 27 anos, e com clara ascensão nos meios musicais europeus - é o segundo brasileiro a lecionar no Conservatório Nacional de Paris, tendo sido precedido apenas por Magdalena Tagliaferro, convidada para dar aulas quando já era um nome internacional - ocupa-se no momento em finalizar o trabalho que irá apresentar no próximo ano letivo, sobre as sinfonias de Beethoven.
Mais especificamente estará apresentando uma nova edição crítica das sinfonias beethovenianas. Em outras palavras, um trabalho altamente científico, que se preocupou em buscar na fonte as criações do compositor alemão. Seria uma trajetória investigativa e, por assim dizer, arqueológica. Durante cinco anos ‘‘de estudos crassos’’ Maximianno Cobra analisou os milhares de escritos deixados (e remetidos) por Beethoven, tentando fazer emergir da poeira do tempo sua música mais autêntica, afastando os erros que acabaram sendo cometidos e perpetuados à medida que os anos se sobrepuseram aos equívocos.
Evidências Passaram pelas mãos de Cobra cerca de 5 mil cartas e bilhetes assinados por Beethoven. Esse material vastíssimo, de grande importância sob o ponto de vista biográfico, reflete os cuidados do compositor com aquilo que produzia. Os documentos ainda guardam as indicações que ele faz para as casas de edição, sobre as composições.
O lado enérgico e arrebatador de Beethoven pode ser sentido em outras correspondências, quando aponta os erros cometidos sobre suas partituras. Segundo Maximianno Cobra ele queixava-se ‘‘com uma agressividade que era inerente ao seu caráter, reclamando dos copistas e das primeiras edições que estavam cheias de erro’’.
Para fazer este inventário das composições beethovenianas o maestro pesquisou ‘‘desde os cadernos de rascunho, passando pelos manuscritos, pelas cópias coligidas, pelas primeiras edições’’ e a partir daí empreendeu um comparativo com o ponto de vista histórico e social da época, que vai do final do século 18 até a metade do século 19.
Paródia Muito embora Beethoven tenha morrido em 1827, o estudo estende-se por mais três décadas porque ‘‘as críticas que vão até a metade do século são muito reveladoras sob o ponto de vista estilístico’’, segundo Cobra. Todo este zelo, continua ele, é necessário para se obter a maior fidelidade possível às intenções do compositor quanto ao texto musical.
‘‘Praticamente todas as edições modernas não o fazem, o que é incrível’’, diz Maximianno. Porém, ainda mais incrível são os erros que às vezes chegam ‘‘ao limite da paródia’’, nas palavras do maestro.
Circunstâncias das mais variadas levaram a este distanciamento entre o original e, em alguns casos, ao arremedo. A começar pelas dificuldades de impressão, muito comuns na época, e pela caligrafia do músico, que apesar de difícil leitura, era rica em preciosismos.
Com esse desvendar que se faz em torno das sinfonias do genial compositor, surge uma inquietação natural. Afinal, o que se ouve hoje é Beethoven ou não? Maximianno Cobra responde:
- Não dá para falar que as interpretações antológicas que nos vieram sob a forma de documentos sonoros são errôneas, que tudo que se faz hoje em dia é absolutamente oposto às intenções do compositor. O problema é que não se pode separar o detalhe do todo, nem o todo do detalhe. É uma questão de evolução, de consciência, de princípios. E o resultado sonoro com certeza também é diferente. Por isso que sob o ponto de vista de documento sonoro as coisas não são válidas. É apenas uma herança de algumas leituras.

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