Em busca do público
Francelino França
O cineasta Beto Brant passou por Londrina na semana passada para a exibição do seu segundo longa Ação entre Amigos, na Sessão Brasil, projeto patrocinado pelo Banestado e beneficiado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Pelos seus cálculos, desde a captação dos recursos do filme até a finalização foram três anos de estrada. A poeira agora é levantada nas viagens para encontrar o público.
Brant sugere a criação de espaços alternativos para a exibição de filmes brasileiros e um circuito itinerante nas universidades. Ação entre Amigos percorreu quase 30 festivais ao redor do globo. Sob o ponto de vista contemporâneo, o filme retrata os anos de chumbo do golpe militar no Brasil.
A ditadura militar foi um período da história nacional ainda pouco explorado no cinema. Filmes como O que é Isso Companheiro?, de Bruno Barreto; Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles; Dois Córregos, de Carlos Reichenbach (ainda a ser lançado), cada um a sua maneira, expuseram as entranhas do horror.
Espremido entre A Múmia e Star Wars, Ação entre Amigos teve quatro únicas sessões na cidade. A abertura do filme é intrigante, bem construída, passeando pelo fichário policial dos protagonistas, na época da repressão. O roteiro, estruturado de forma não linear, em alguns momentos, deixa o público atônito, se questionando como o personagem Miguel (Zecarlos Machado) encontrou tão rapidamente o ex-torturador Correia (Leonardo Villar).
A envolvente e segura direção de Beto Brant fez emergir a angústia dos personagens diante do dilema - matar ou não o torturador? A metáfora das rinhas de galo é seguramente um grande achado. Somente nos subterrâneos da história eles encontraram Correia, primeiramente nas salas de torturas e, anos depois, nas rinhas de galo, proibidas no País.
Na Universidade Estadual de Londrina, antes do debate com alunos e a produtora Sara Silveira, Beto Brant conversou com a Folha2, revelando seus próximos planos e decifrando sua cinematografia. A seguir os principais trechos da entrevista.
Em Os Matadores, você aborda um tipo de profissão que sobrevive nos subterrâneos, já em Ação entre Amigos, visita os porões da ditadura. O que move você para essa direção?
Primeiro é querer ver uma história que não seja a oficial. É importante poder colocar para o público esse tipo de questão ética, não ter verdades definitivas na temática. Sob o ponto de vista de imagens, procuro olhar para um Brasil que não seja folclórico. Durante a pesquisa e a realização de um filme, a gente vai criando intimidade com lugar, com as pessoas, e isso vai se incorporando ao filme. Em Os Matadores, a lei é feita por quem detém um interesse econômico. Em Ação entre Amigos, o que torna o personagem Miguel extremamente rancoroso é a indignação diante da impunidade.
Quais são os outros temas que estão orbitando na sua cabeça?
O último texto que a gente desenvolveu agora se refere à propina na administração pública, dentro da construção civil. Minha parceria é com o escritor e roteirista Marçal Aquino. Os Matadores foi publicado num livro dele chamado Miss Danúbio. Ação entre Amigos é roteiro original. Mas podemos filmar também um outro texto que vai ser publicado no próximo livro O Amor e Outros Objetos Pontiagudos.
Como você faz para chegar à versão definitiva de um roteiro?
A versão definitiva vem após uma pesquisa da locação. Em Os Matadores, a gente só escreveu o roteiro definitivo depois que fomos lá, falamos com os matadores, com os fazendeiros e entramos no Paraguai. Foi quando a gente conseguiu visualizar a história e encontrar o caminho dramático. Ação entre Amigos pensa sobre os sobreviventes, qual o tipo de avaliação que eles fazem sobre a trajetória da vida deles. Não dá para fazer um filme com interesse documentarista. É legal dar esse contorno emocional, inventar a biografia de personagens anônimos.
Até que ponto você acredita que essa temática de Ação Entre Amigos, essa revisita aos porões do golpe militar, ainda sensibiliza o público? É atual esse tema?
É completamente contemporâneo, não é de recriação histórica. É aí que está a dimensão do filme. Quem é filho desta geração tem uma receptividade especial, até mesmo por curiosidade, por notar o ideal que movia aquela geração. O fato de esse período ser superado historicamente, não significa que não exista dentro da cabeça de muita gente por aí. Alguns saíram com muito orgulho e outros saíram machucados pra cacete.
Seu filme Os Matadores foi muito comparado com Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, porque as histórias se entrecruzam, há muito sangue, palavrões...
É até um elogio. Gosto muito da cinematografia dele. Tarantino tem aquela coisa de ser referente, citar muitos filmes, ele trabalha muito em cima da cultura pop, desde a escalação do elenco e a escolha da trilha sonora. Eu não tenho o menor comprometimento em fazer um filme pop. Outra característica de Tarantino é dizer o que esse cara, por trás dessa arma, está pensando?. Esse é um ponto comum que acho que tenho com Tarantino, além da desconstrução da narrativa. Em Ação entre Amigos, cada bloco do filme revela uma chave do bloco anterior, a história é toda contada sem lineariedade.
Qual o ponto de partida para você chegar ao elenco?
O ator tem de ser um sujeito inteligente para o papel que ele está desempenhando, ter intimidade com o personagem e possuir texto próprio. Sinto na conversa com o ator se ele tem repertório para compreender a minha visão daquele personagem. Muita coisa do próprio ator é incorporada. É fundamental esse tipo de disposição do profissional. Nesse meu último filme, os atores estavam inteiros no processo, não tinham celular, não tinham compromisso. O companheirismo da pescaria existe na vida real. O Zecarlos Machado, por exemplo, sabe como irritar o Genésio de Barros. Cada um teve uma experiência próxima à guerrilha, ao movimento estudantil.
Que tipo de receptividade Ação entre Amigos está recebendo no exterior?
Ele está sendo muito visto em festivais internacionais. Ele percorreu os festivais de Veneza, Sundance, Roterdã, Munique, Moscou e Sidney. Ainda vai para Israel, Croácia e Grécia. No total, dá uns 30 festivais internacionais. Encontrei uma mulher romena no Festival de Chicago, ela contou que o Nicolae Ceausescu acabou com a oposição na Romênia. Quando caiu o regime, não existia mais a oposição, porque foi dizimada pelo ditador. Eles não tinham fôlego para falar qualquer coisa sobre o regime. Essa romena ficou admirada de ter no Brasil pessoas falando, sobrevivendo com energia e vitalidade. O filme acaba botando as pessoas em contato com um país que não é do samba e do Carnaval.
Fazer cinema no Brasil exige um grau de ambição muito alto?
É suado, é preciso batalhar muito para enfrentar a facilidade com o qual o cinema americano é exibido aqui, sem o menor controle, sem a menor taxação, de forma escancarada. É difícil a gente exibir o cinema brasileiro hoje, mas estamos formando público. A gente tem crescido muito de Carlota Joaquina (de Carla Camurati) para cá. O público está percebendo que o cinema brasileiro é bem-acabado, tem uma diversidade temática muito grande. Por isso, é preciso ter espaço para todo tipo de cinema, não pode haver uma opção estética somente.Londrina foi uma das cidades brasileiras escolhidas pelo cineasta Beto Brant para divulgar Ação Entre Amigos
Milton DóriaBeto Brant: O público está percebendo que o cinema brasileiro é bem-acabado, tem uma diversidade temática muito grande





