Miéle estufa o peito com orgulho ao lembrar do primeiro show que dirigiu na vida. Foi o de Sérgio Mendes no Beco das Garrafas, tradicional reduto ''bossa-novista'' na Zona Sul do Rio, no início dos anos 60. Ao lado do parceiro Bôscoli, dirigiu mais de 120 espetáculos, de Elis Regina a Roberto Carlos. Por esse histórico, Miéle foi escolhido para assumir o ''A Vida é Um Show'', da Rede Brasil. ''Fiquei lisonjeado por substituir o filho de um grande amigo. Sempre fui o Tio Miéle para o Claudinho Lins...'', ri.
Aos 63 anos, Miéle exibe um currículo de indiscutível versatilidade. Já fez rir em ''Planeta dos Homens'', apresentou programas como ''Batalha dos Astros'' e arriscou uns agudos em ''Sandra & Miéle''. De tudo que fez, demonstra especial carinho pelo musical ''Elis''. Já do pior momento, ''Cocktail'', do SBT, prefere esquecer. ''Aquele programa não era muito a minha praia'', esquiva-se.
Coincidência ou não, ''Cocktail'' foi o último programa apresentado por Miéle na tevê. Desde então, contentou-se em fazer graça na ''Escolinha do Barulho'', da Record, ou matérias semanais para o ''Flash'', da Band. Ele acredita que o ''A Vida é Um Show'' pode inaugurar uma nova fase na carreira. Tanto que resolveu batizar a autobiografia que está escrevendo com o nome do programa. ''Quando se faz sucesso, o ego fica massageado. E é do ego que todos nós vivemos'', filosofa.
Como é voltar a apresentar um programa depois de dez anos do malfadado ''Cocktail''?
Nos últimos anos, só tenho aparecido na tevê como entrevistado. Para ser sincero, já estava morrendo de saudades. Desde que comecei, nunca fiquei tanto tempo longe da tevê. Até hoje, me envergonho do ''Cocktail''. Não sinto vergonha do ''strip-tease'' em si. Hoje em dia, ele seria quase infantil. Mas aquele programa era de mau gosto e atrapalhou muito a minha carreira. Deixei de fazer muitas convenções elegantes por causa dele. Perdi um pouco da pose do Prêmio Moliére, que apresentei por 15 anos no Municipal...
Você pretende fazer alguma alteração no formato do ''A Vida é Um Show'', da Rede Brasil?
Não. O programa está funcionando muito bem. A equipe de produção é maravilhosa. Quando entrevistei a Ângela Maria, por exemplo, não sabia que ela tinha sido convidada pela Carmem Miranda para trabalhar nos Estados Unidos. Com a maioria dos entrevistados, possuo alguma familiaridade. Se alguém exigir mil toalhas do camarim, vou chiar: ''Não enche o saco, porque já fomos até Piracicaba de carona e passamos a noite numa kombi''.
Você dirigiu, durante anos, os shows do Roberto Carlos. Pretende levá-lo ao programa?
Não. O Roberto Carlos é ''ilevável''. Ele não vai por causa do contrato com a Globo. Se não fosse o contrato, tenho certeza absoluta que ele também não iria. O Roberto Carlos só sai de casa para fazer show. Certa vez, tive de tirar a música ''As Rosas Não Falam'', do Cartola, do roteiro de um show, porque o Roberto reclamou: ''Puxa, bicho, como é que elas não falam? Converso com elas todos os dias''.
Como você descobriu sua vocação para ''showman''?
Nunca pensei em ser ''showman''. Queria seguir a carreira de produção e ponto final. Quando eu era assistente de produção do programa ''Hit Parade'', da TV Rio, a Ângela Maria não pôde ir. Alguém gritou: ''Miéle, veste aí uma roupa de rumbeiro e canta Babalú, porque a Ângela não vem''. E lá fui eu, maquiado de mulata, imitar o Johnny Mathis cantando ''Babalúúúú!''. Eles me chamavam para as coisas mais absurdas...
Qual o programa de tevê que você mais se orgulhou de fazer?
De tudo que já fiz, o que mais gostei foi do sucesso. Fazer sucesso é muito prazeroso. Como diretor da Globo, fui muito premiado com o espetáculo ''Elis''. Fui diretor dos espetáculos da Elis, parceiro de palco, padrinho de casamento... Certa vez, ficamos cinco anos sem falar um com o outro. Ela brigou com o Bôscoli e sobrou para mim. Um dia, fui assisti-la no Canecão. Quando ela me viu na platéia, começou a chorar. Ela chorou do palco e eu, da platéia. Foi uma choradeira danada.

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