Em busca do dedo perdido
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de junho de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
A maneira mais fácil de um escritor resolver a trama de um romance é atribuir o próprio texto a outra pessoa. Alega, ficcionalmente, que encontrou o manuscrito perdido em algum lugar, ou que lhe foi entregue pelo autor pouco antes de morrer.
Em seu novo livro, Buscando o seu Mindinho, o escritor mineiro Mario Prata opta por essa facilidade para compor um romance fragmentário e de conteúdo vulnerável. A obra parece mais com uma reunião de pequenas histórias do que um romance propriamente dito. Para tentar preencher o vazio entre as histórias, constrói uma espécie de almanaque com informações inúteis chupadas da internet sobre o dedo mínimo.
Buscando o seu Mindinho é o terceiro volume da coleção 5 Dedos de Prosa, idealizada pela Editora Objetiva que já publicou O Indigitado, de Carlos Heitor Cony; e Efeito Urano, de Fernanda Young. Escrito sob encomenda, Mario Parta fez um livro fraco e impreciso. Oferece a impressão de que, talvez precisando cumprir um número estipulado de páginas, inseriu textos e soluções que pouco ou quase nada dizem.
A obra coloca Prata recebendo, durante o velório de um antigo amigo, uma caixa com textos escritos do falecido, Mindinho, que cultivava o ofício de escritor na surdina. Nascido sem o dedo mínimo de uma das mãos, ele narra suas pesquisas sobre o referido dedo, da história de seus antepassados às novas descobertas da ciência.
Prata parte do princípio de que a melhor maneira de falar de um dedo é suprimi-lo das mãos. É exatamente em sua ausência que o dedo se faz presente, nas mais variadas possibilidades. Nesse sentido, acerta o alvo mesmo recurso utilizado por Cony em O Indigitado. Por outro lado, o romance não consegue dizer a que veio. Não por desconhecer a resposta, mas porque está procurando-a, perdido em caminhos difusos.
As narrativas que se salvam no livro são justamente aquelas em que o autor coloca em prática sua melhor característica: histórias com elementos sexuais e culturais escritas com bom humor. Tudo indica tratar-se de uma obra que deve funcionar bem apenas nas mãos dos fãs de Prata.
Serviço:
Buscando o seu Mindinho, de Mario Prata, Editora Objetiva, 244 páginas, R$ 22,90.
Uma menina doida, da barraca ao lado chegou pra mim, na hora que eu estava fazendo macarrão pra janta, junto com o seu Mindinho, e perguntou:
- Vocês têm molho de tomate aí???
- Tem, vou usar aqui, pode pegar um pouco seu Mindinho falou.
A menina abriu a lata, com o abridor, e começou a comer o molho de colherada, sem parar. O seu Mindinho ficou atônito e ela:
- Ai, gente, obrigada. É que o macarrão que eu comi agora não tinha molho nenhum, precisava comer um pouco de molho agora. Valeu! Tchau...
(Fragmento de Buscando o seu Mindinho)


