Em busca do brilho perdido
A placa à beira da estrada desértica materializa o sonho. Logo à frente está Bagdá, capital do Iraque, uma das cidades mais belas de todo o Oriente. Palco de mil e uma histórias fantásticas, Bagdá habita o imaginário do visitante. As luzes noturnas emprestam uma atmosfera mágica às largas avenidas.
Calor. A lufada de ar quente e abafado não deixa dúvida: é verão em Bagdá. Quarenta graus, e é apenas madrugada. A rodoviária está congestionada. Numa balbúrdia sem precedentes, homens oferecem táxi, carregadores se comprimem entre malas e sacos. As pessoas estão pelas ruas, parecem não domir. Antes, parecem vagar em uma incansável vigília, a guardar a cidade dos sonhos, das lâmpadas, dos tapetes voadores.
À sombra das tamareiras imortais Bagdá amanhece. A cidade de mais de 5 milhões de habitantes é um misto de tons ocre e areia. Ambígua, mistura os ruídos urbanos com o surpreendente silêncio de suas ruelas, de seus bairros distantes, da calma do dia sem brisa.
fotos: Maranúbia BarbosaAvenida Mãos da Vitória: lembrança da guerra contra o IrãMajestosa, Bagdá tenta recuperar o brilho perdido com os anos de conflito armado. Quase toda a cidade foi reconstruída depois dos bombardeios da guerra do Golfo. Todas as pontes sobre o rio Tigre estão restauradas, assim como os prédios públicos, escolas e hospitais. O acabamento nem sempre é de primeira, mas está tudo de pé. Vestígios da guerra ainda existem na periferia, mas o que entristece é ver as rachaduras em monumentos históricos. A tão propagada precisão cirúrgica dos ataques aéreos norte-americanos andou errando alvo. As bombas afetaram construções milenares, mesquitas e sítios arqueológicos pertencentes ao patrimônio histórico mundial.
De ouro puro, incrustados de cristais e decorados com azulejos minúsculos, os minaretes de Bagdá elevam ao cume a arte islâmica. A mesquita dourada de Al-Kazimiya é um belo exemplo. A porta, toda decorada com arabescos, é um espetáculo de cor. Monumentos do século 12, como a madrasa Al-Mustansiriyya, em Bagdá, trazem a marca sóbria e elegante da arte persa, que influenciou a arquitetura árabe. As madrasas são edifícios muçulmanos destinados às ciências. Cada madrasa é edificada com quatro iwan, uma espécie de nicho aberto com uma grande cúpula. No pátio ficam as celas dos estudantes, atualmente desativadas.
A madrasa de Al-Mustansiriya fica no centro, junto ao mercado, às margens do rio Tigre. Na praça do mercado fervilha o burburinho nas barracas de frutas. Uvas, melões, pêssegos e romãs apetitosos e muito doces disputam lugar com os carrinhos de peixe fresco. No labirinto de corredores do mercado abrem-se as portas dos bazares. Jóias de ouro, prata e pedras preciosas brilham junto aos braceletes rústicos de metal, nem por isso menos atraentes.
Mesquita em Bagdá: minaretes de ouro e nichos de cristalOs artesãos executam seus trabalhos numa paciência infindável. Garrafas de vidro colorido, lustres e tapetes de seda e lã tecidos à mão espalham-se pelas prateleiras. Diante do tapete a imaginação do visitante voa como o desejo de vê-lo no ar. Os arabescos das tramas, o entrelaçado dos fios e as cores emaranhadas são características dos tapetes iraquianos.
Nesses souks o que hipnotiza o olhar do estrangeiro são, sem dúvida alguma, as lâmpadas maravilhosas. De cobre, de prata, não importa. A magia que envolve a lâmpada você só encontra nos souks de Bagdá. Definitivamente, o gênio não mora mais dentro da lâmpada, mas quem liga para isso? Vale mesmo a emoção de esfregar a lâmpada e conservá-la. Quem sabe um dia...?
Souk: território de rico artesanatoFora do centro da cidade, e logo atrás da linha férrea desativada está o mausoléu de Suhravardi, erguido em 1234. O túmulto foi construído por um sultão para homenagear a esposa preferida. A cúpula do mausoléu tem dezenas de furos que deixam infiltrar a luz do sol por sobre o túmulo de Suhravardi. Ao meio-dia a cena é brilhante, no sentido literal da palavra. Na parte exterior do mausoléu estão túmulos de nobres da época.
Em Bagdá, as mesquitas reúnem todo o requinte que caracteriza a arquitetura e arte islâmica. As cúpulas e, principalmente os minaretes das mesquitas de Al-Khulufa e Al-Shahied, se superam em beleza e sofisticação. Além de local de culto, as mesquitas são ponto de encontro para os muçulmanos, que tiram os calçados e sentam-se pelo chão, em preces fervorosas para Alá.
Concorrendo com os monumentos históricos estão as obras contemporâneas. O presidente Saddam Husseim erigiu nos arredores da cidade uma construção para homenagear os mortos na guerra contra o Irã. O local é muito frequentado pelos iraquianos, que aproveitam as alamendas para passear e fazer piquenique. De todas as obras construídas recentemente, nada impressiona mais do que a Avenida das Mãos da Vitória. Em uma larga avenida erguem-se dois pares de gigantescos punhos levantando sabres que se cruzam no ar. Ao sopé dos punhos acumulam-se esculturas de capacetes dos derrotados da guerra: os iraquianos. Saddam quis deixar para a posteridade a lembrança daquilo que eles chamam de vitória. Numa guerra travada ao longo de oito anos, Irã e Iraque disputaram o domínio sobre o Chatt-al-Arab, canal onde deságuam os rios Tigres e Eufrates no Golfo Pérsico. As baixas foram altas em ambos os lados: cerca de 350 mil mortos para cada país em uma guerra só de vencidos.Tudo em péVista da capital iraquiana: prédios públicos restaurados e vestígios da guerra na periferiaMaranúbia Barbosa
Especial para a Folha





